Ivan Lessa: "Season" inglesa global

No verão britânico, a alta sociedade está a toda, mas com dinheiro estrangeiro

BBC Brasil |

selo

Aí está, lá fora, o verão. Atípico, conforme dizem. Chove como se na voz de Tito Madi. A temperatura, vez por outra, passa dos 20 graus. Greve que não acaba mais, as mais variadas em uns bons 30 anos.

No entanto, impávida, a season vai em frente. Ou, ao menos, tenta ir em frente. Com sorte e muito investimento aloprado, tudo seguirá de acordo com a tradição inglesa. E quando digo inglesa, é por que é inglesa mesmo.

País de Gales, Escócia, Irlanda do Norte, nenhum desses países têm season . O que por lá acontece é vento, chuva, calor e gente com cadeira armada na calçada em frente de casa, a maior parte, nos raros dias de sol, com um lenço cobrindo a cabeça.

Recessão vai, recessão vem, e as tradições e instituições que constituem a English Season prosseguem mais animadas que nunca. Durma-se – e pouca gente vai para a cama mais cedo – com um barulho desses: espoucar de champanha nas corridas de Epsom e Ascot, aqui e ali um pau entre Hooray Henrys (são os Mauricinhos deles), senhoras e senhoritas, sob chapéus bizarros, confundem a multidão de plebeus que acompanha (de longe, bem de longe) os acontecimentos.

Há muito que uma temporada de verão não era tão badalada. O leão britânico (aí, sim), desdentado e vomitando macarrão, feito leão de circo mambembe, ergueu-se nas patas traseiras, jogou a juba para o lado e urrou alto.

Como explicar a ressurreição, por mais leviana e inconsequente que seja? Meu camaradinha, como explicar dinheiro para quem não o tem? Lázaro voltando à vida não causou tanto assombro e especulação. No entanto, o “milagre” da volta da English Season deve-se à coisa mais simples que há: tutu, dinheiro, granolina.

Recessão? Os tinflas. Já era, coisa de pobre. O negócio é globalização. Ninguém mais disposto a entregar as chaves da casa e do castelo do que os ingleses, contanto que o preço seja certo ( If the price is right , dizem, no melhor sotaque anos 30, o nariz voltado para os céus, como para não sentir o mau cheiro da negociata e dos negociantes que os cercam e com os quais têm que lidar).

Vejamos, pois. Elite inglesa. Não tem mais nada de inglês nisso. Em 1988, o Sunday Times lançou pela primeira vez a lista dos mais ricos do país. Apenas 11, num rol de 100, eram estrangeiros. Nos últimos anos, mais da metade é composta de forasteiros.

Trata-se de uma economia Wimbledon a reinante na Inglaterra. Os ingleses entram com os locais charmosos, os gringos com a dinheirama. No caso, ocorre um paradoxo: a recessão acelerou a globalização da Inglaterra. Os ingleses andaram quebrando a cara.

Meio milhão de empregos foram para a cucuia e os ricos se mandaram para outros países onde não é obrigatório pagar 50% de imposto sobre suas bonificações bancárias. A elite globalizada, com sua tuturama gozando de uma boa e lucrativa descansada no exterior, atrelou seus bens numa boa: o Oriente em pleno boom.

O verão inglês foi tomado de assalto por esses que ainda tem dinheiro para pagar os tubos por um bilhete, em geral em camarote executivo, nas pistas de corrida ou em Wimbledon. E tome champanhe, finas iguarias e players suíços, espanhóis, tudo menos inglês. Ou britânico, que volta a valer.

Sim, é chato, mas, para o consumidor comum, há um lado bom. As galerias de arte aceitaram prazerosas as subvenções dos financistas internacionais, assim como o Derby foi financiado pelo Investee Bank, a exposição de Gauguin, no Tate Modern, nos é oferecida pelo Merrill Lynch, a mesma das estrepolias de poucos anos atrás.

Há três anos o sistema bancário via-se diante de um meltdown (um derretimento? Desastre?). Agora, só derrete, com sorte, o creme em cima dos morangos de Wimbledon. As greves marcadas para a ocasião só deverão afetar a plebe rude. Azar o dela.

Um último dado para me consolar de ser pobretão: 65% das casas, ou palacetes, de Londres, para ser mais preciso, com um valor acima dos 4 milhões de dólares, pertencem a (adotemos a terminologia inglesa) foreigners .

Esporte das multidões? Pois não. O Arsenal, o Chelsea, o Liverpool e o todo poderoso Manchester United são todos da propriedade de russos ou americanos com dinheiro que mal sabem o que é um escanteio. A instituição Harrodds? Essa foi para um príncipe saudita.

Enquanto isso, esportes regionais menos populares, e mais ingleses, ficam a a ver navios chegando e ninguém – nem mesmo um embaixador dos talebãs – quer alguma coisa com eles. Em compensação, as melhores instituições educacionais, Eton e Oxford, por exemplo, foram para, não digo o beleléu, mas o Bahrein, ou um bicho desses.

Algumas instituições nacionais tivéssemos nós – porrinha e peteca valem? – e deveríamos oferecer sorridentes ao melhor lance. O negócio é ter candidatos. Não se pode ficar a vida toda vivendo do orgulho da fortuna do teuto-brasileiro Eike Batista.

    Leia tudo sobre: ivan lessa

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG