"Brighton Rock" foi o livro de um verão que praticamente inexistiu na Inglaterra

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Passou maio, passou, junho, passou julho e, agora, passou agosto. Setembro dá as caras e passará também.

Sei que o verão praticamente inexistiu por aqui. Teve um ou dois dias bravos, picando 30 graus e até mesmo 32. Mas foi fogo de palha ou, para atualizar a expressão, garoa Irene.

O resto ficou lá pelos 20 e poucos, bem poucos, graus. Sei por dois motivos: primeiro, o ventilador não teve que sair do armário e eu limpar suas pás, e segundo, a posição do sol em relação à minha casa. De manhã, banha a sala e, de tarde, o quarto e o escritório.

A deixa sazonal é dada principalmente pela gata, que acompanha as lagoinhas douradas formadas pelo, perdão, astro-rei, no chão, no tapete, no carpete.

Estas foram minhas férias, senhora professora, conforme narrei, mentindo um pouco, ou bastante, no 3º ano primário.

Televisão, DVD, computador novo e os livros. Ah, os livros. Deixo de lado os serial killers que abundam na TV e no noticiário e passo para as leituras, ou uma leitura, para ser preciso como seu autor, onde pretendo ficar até o fim desta página.

Li jornal no desktop novo engatilhado com o Windows7 e posso dizer que não me espantei com os últimos acontecimentos. O único espanto é, depois de séculos, ter um computador veloz e tinindo.

Mundo afora, e que fique o mais afora possível, o de sempre, com as caras de sempre, agumas novas, mas todas repetindo ou deblaterando as mesmíssimas sandices, não é mesmo, Obama?

Nos livros a coisa muda de figura. Eu, que desenho lá por dentro tudo que leio, às vezes, quando empombo, até mesmo história em quadrinho, faço deles romances gráficos, não só porque continuam na moda, como eu gostaria de estar, mas também porque o cinema assim me acostumou e, agora, me ajuda na produção interna de um romance impresso.

Difícil é fazer romance gráfico mental com ensaios, artigos e receitas de bolo ou mulheres em trajes sumários, que esses dois últimos ítens já vêm com tudo muito explicadinho e em seus devidos lugares.

Mas um "Brighton Rock", do Graham Greene, é uma beleza para a gente exercitar a imaginação (no caso há de ser beirando a doentia) e dar fisicalidade, com cores, sons, caras, roupas, paisagens e diálogos do início dos anos 30, com sua gíria própria e ultrapassada procurando não trair o estilo e as intenções do romancista sempre em moda.

Ainda há pouco fizeram uma nova versão do livro (remake em brasileiro, pois não?) e aguardarei o DVD para conferir.

O filme, com o hoje lorde Richard Attenborough, dá para se ver dando algum, ou melhor, dando bastante desconto. Já o livro ele nos entra pela goela como cerveja morna ou soco inglês seguido da bala de se chupar (rock, uma espécie de bengala colorida doce de morrer) que dá título ao livro. É sobre um meninão, Pinkie, antecedente mais cruel e complicado que os arruaceiros de hoje, que na cidade-balneário pratica a versão inglesa do gangsterismo nos anos antes da Segunda Guerra.

Pinkie, como todo anti-herói de Greene, sofrendo ao mesmo tempo de crises de catolicismo da mesma forma que se dedica a maldades e a busca do caminho que levará sua alma (terá ele uma? É uma indagação do romance).

Um meninão perigoso à solta, entre mulheres e truões, com seus deuses malévolos e armados de navalha. Navalha, por falar nisso, é a prosa de Greene. Os diálogos entram pelos ouvidos da gente já cortando e ferindo.

Ficam à vontade, como se em nós tivessem fixado residência, mesmo com gíria em desuso ("polony", "buer"), praticando maldades horrendas em meio a suas dúvidas e covardias.

Uma leitura inacreditável boa de doer. Doer literalmente.

Duas coisinhas: uma é que Greene, então com 34 anos, usava e abusava dos símiles, pois tinha jeito para a jogada perigosa e que pode fácil, fácil dar em besteira.

Segunda: eu tenho um ouvido razoável. Detectei nos diálogos alguma coisa, chamemos de inflûência, do T.S. Eliot de "The Waste Land". Se tiver quebrado a cara, problema meu. Dar com os burros n'água (por falar em gíria antiga) tanto num quanto noutro autor não é vergonha nenhuma. Eliot publicou o poema seminal em 1922, Greene lançou seu romance em 1934. Dava.

"Brighton Rock" foi o livro deste verão para mim. Houve outros, que eu, quando bobearem, falarei.

No momento o importante é não mencionar Líbia ou líbios. Que se primaverem. Se é que ela estará de verdade entre nós neste setembro que não tem a menor graça nem para mim nem para minha gata nem para ninguém.

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