Ivan Lessa: Pipis e pipisórios

O lança-perfume nos anos dourados do carnaval carioca e os foliões mijões

BBC Brasil |

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Na minha época, a gente preferia jogar lança-perfume. Na pernoca das moças, na nuca do companheiro. Ou empapar um lenço e ficar cheirando até entrar naquela velha – ó que saudades que eu tenho da aurora de minha vida! – prise, precursora dessa bobajada da pesada que virou noticiário, moda, filme, tudo.

As prises de então eram inofensivas. Acho eu. Sua conotação, a do lança-perfume, vinha em meio a um punhado de confete na boca, uma serpentina atravessando o salão do Bola Preta, a Colombina misteriosa, o Pierrô que nos passou a perna.

De forte conotação literária, nosso Carnaval, nossos lança-perfumes. As de vidro eram um perigo, além de passarem para o gênero feminino. Quebravam à toa e duravam pouco. Não era esse o slogan, mas Rodo Metálica, doiradinha como só uma “onda” sabe ser doirada (até mesmo dourada) era um luxo. Vinham numa caixa de três e para nós, garotos mais abastados, custavam 600 mil-réis.

Eles, os que subiam a serra (Petrópolis, Teresópolis) para fugir do tríduo momesco, chamavam de cruzeiro. Nosso câmbio era outro. Nós, piratas, legionários (de azul ou bege), índios peles-vermelhas.

Como cantar É Com Esse Que Eu Vou ao embalo de outro estimulante que não o lança-perfume Rodo Metálico? Aquele cheiro, meu Deus, ficava pela cidade inteira pelo menos um mês. Limpavam a avenida, as ruas todas, desentupiam ralos, a cidade voltava a seus olores – que não eram grande coisa, mas era aroma de Cidade Maravilhosa: aquele cheiro de feira, do pão das 10 da manhã e das 5 da tarde. Para não falar da maresia. Sim, melhor nem falar da maresia.

Solto-me de um parágrafo e, do alto da popa, espada na cinta, depois de berrar “homem, não!”, como o Nuno Roland na chanchada da Atlântida, volto ao lança-perfume. Tenho em casa um Rodo Metálica vazio, claro, bem ao lado de um rádio-capela e de uma estatueta de farmácia de Veramon.

Talvez eu não saiba, talvez eu ainda venha a descobrir, mas nesses três objetos que continuam a ser obscuros e de desejo também está o resumo de toda minha vida, com suas aspirações, desilusões e o que mais nela bater (e nela batem). Vou mudar de estação, vou mudar de ano, abrir novo parágrafo.

1960 e Jânio, que varria tudo, acabou, não só com briga de galo e jóquei no meio da semana, como também com o pobre da lança-perfume. Durante uns tempos, todo mundo ficou mais amigo de dentista conhecido, já que este tinha acesso à “quelene”.

Quelene não está nos dicionários. Procurei. Deve ser algo totalmente diferente. Sei que era de vidro, fabricada na Argentina em geral e supostamente para uso anestésico, principalmente na odontologia. Cara que vendia cigarro americano e uísque importado também vendia “quelene”.

Nunca fui de “quelene” ou seja lá que nome tenha. Faltava um perfuminho vagabundo, colar de havaiana, chapéu de marinheiro. Outros que fossem. E foram. Depois devem ter ido de coisas mais fortes sem nada a ver com Carnaval e, “seu” Jânio, foi nisso que deu.

Leio agora em nossa folhas que andam fazendo pipi, xixi, urinando, mictando adoidados em nosso Carnaval. Mas em qualquer lugar e a qualquer hora. Basta dar vontade. O Globo não é de meias palavras: na terça-feira gorda lá estava em sua página informatizada: “Número de mijões detidos este ano bate recorde.”

E no miolo da notícia: “O número de pessoas presas fazendo xixi nas ruas do Rio já é um recorde este ano, informou a Secretaria da Ordem Pública (Seop).

Ao divulgar o balanço das prisões na noite da segunda-feira, a Seop revelou que foram presas 606 pessoas em quase um mês. No Carnaval de 2010 – prossegue a nota – foram levados para a delegacia o total de 360 pessoas flagradas fazendo xixi. O aumento da fiscalização e o maior número de blocos e foliões foram considerados os principais fatores para o crescimento.

A Operação Choque de Ordem, realizada por agentes da Seop, com apoio de guardas municipais, durante o desfile dos blocos de rua no Carnaval 2011, levou para a delegacia, até o momento (era segunda-feira), 606 mijões (16 mulheres e 2 estrangeiros) que urinavam na rua, desde o início da fiscalização pré-carnaval, dia 12 de fevereiro.”

Repito e insisto: sou mais o lança-perfume. Até de vidro.

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