Ivan Lessa: Pinguim também esconde

Casal de pinguins macho no aquário de Londres mantém relação homossexual

BBC Brasil |

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Em matéria de bicho, eu sou mais cachorro e gato. O resto me é indiferente. Assim como eu sou indiferente a eles.

Macaco, eu acho uma boa. Tendo de ser chimpanzé. Feito aquele do Tarzan, a Cheetah, ou Chita e ainda Cheeta, que, na verdade, era macho, chamava-se Mike e continua vivo, tendo até publicado um livro de memórias, escrito por um ghost-writer, possivelmente um outro macaco mais prendado.

Li e não gostei. Muita divagação, fofocas baratas sobre Johnny Weissmuller e Maureen O'Sullivan (mãe da Mia Farrow), seus amos nas primeiras versões na imortal criação de Edgar Rice Burroughs na Hollywood da MGM.

O estilo de Cheetah, no papel, é inseguro e não chega aos pés de Paulo Coelho. Além do mais, o livro foi promovido como se da autoria do macaco que fizera todos os filmes do Tarzan. Pura marquetice. Através de sua carreira, Tarzan e Jane tiveram várias Cheetahs (minha grafia preferida) e foram morrendo como morrem todos os astros, não importa sua grandeza.

Outro dia mesmo, deixou-nos Johnny Sheffield, que fez o papel de Boy em tantos filmes do “homem da selvas”, e, mais tarde, já parrudão, peitou filmes classes C e D, como um Tarzan dessas classes merecedor. O nome do herói que “vivia” era Bomba, que perdia até em matéria de carisma para aquele que virou marchinha e bordão entre nós, “o filho do alfaiate”.

Acho que eu sou o único de minha geração que acompanhou fiel a carreira do grande nadador olímpico que fora Weissmuller, até que este, as pelancas dominando seu corpo, outrora ágil e esbelto, virou Jim das Selvas. Vi todos os Bombas que levaram no Pirajá, na Ipanema dos anos 40 e 50, achando-os umas “bombas”, e a miséria deste jogo de palavras é minha forma de iconizar aquele que, nos bons tempos da MGM, recebeu cafunés do casal que o adotara.

Entre uma ordem de Tarzan, Boy, stay! e Boy, take Cheetah! , Boy, ou Johnny Shefield, cá entre nós, só conheceu da vida a 3ª e a 4ª classe, tendo viajado em pé ou de cipó puído durante todo seu tempo entre nós.

R.I.P, Bomba, Tarzan, Jane. R.I.P. todos os outros chimps que fizeram o papel do simpático bicho e sua maneira única de arreganhar os beiços e exibir aquela dentadura terrível. Foram-se todos. Fiquei eu para não contar direito a história. Pegarei o cipó das 3 da manhã, logo que chegar o outono.

Eu falava de bichos. Mas cinema, e cinema vagabundo, é uma forma garantida de me distrair a atenção e passar a bola da coerência entre minhas pernas, para recorrer a outra metáfora que também me foi cara (a bola de futebol custava 10 mil-réis no “Lá em Casa – Brinquedos”, na avenida Copacabana).

Eu nunca liguei para pinguim. O único que me interessou foi aquele que o grande Aldir Blanc botou em cima da geladeira. O resto, à exceção do Pinguim do Batman, que, afinal, era gente, como eu e você, irmão, sempre deixei pra lá. Pela televisão, era só dar de cara com um documentário sobre o danado desse bicho para eu correr adiante e procurar no canal da National Geographic um documentário sobre tribos perdidas da África setentrional.

Agora, porém, graças a uma pequena nota em jornal passei a adquirir um novo respeito pela – ah, lástima! – “destremada” ave. Ao que parece, os cientistas, esses eternos desocupados, descobriram, após anos de observação, na certa, que, para se protegerem do frio, vivem – se isso é vida – bem apertadinhos uns aos outros.

O que sempre dá besteira, seja em gente, seja em pinguim. Aqui no London Aquarium há uma colônia de nove pinguins da raça Gentoo (suponho que isso seja bom) e um pinguinista treinado notou o que era óbvio para todos que visitavam o aquário: dois deles eram gays. O casal foi importado ainda este ano do zoológico de Edimburgo e, olha a maldade desse povo, batizaram um de Daley Thompson (atleta britânico, afro-descendente) e o outro de Michael Phelps (nadador americano ariano-descendente).

Os dois – os dois pinguins, sublinho e friso – mantêm, descobriu-se agora, uma relação homossexual que já data de algum tempo. Evidente que não se espera reprodução ou união civil entre os dois Gentoos, mas as devidas autoridades irão se aproveitar da natureza insólita da relação para botar os dois dando uma ajudazinha, ou “sentada em cima”, nas tarefas de chocar ovos do resto da pinguaragem dita “normal”.

Terminemos numa nota perigosamente discriminatória; Daley e Michael, para serem distinguidos do resto da turma, foram obrigados a passar a usar uma faixa nas asas destinguindo-os. Senhores pinguinólogos, isso já foi feito na História e o resultado foi um desastre. Muita atenção, muito cuidado!

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