Ivan Lessa: Pedindo apologias

Se os britânicos pedem "desculpas" ao menos oito vezes por dia, os brasileiros não são tão protocolares assim

BBC Brasil |

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Perdão. Sinto muito. Desculpa, com suas variações: desculpas, muitas desculpas, desculpa desculpa desculpa (assim mesmo, 3 vezes seguidas bem rápidas, para os casos ligeiros e inesperados).

O casal caipira na porta da casa que acabara de visitar, “Desculpa qualquer coisa”. Desculpa é os tinflas. E pronto.

Durante a vida inteira, empurrando alguém sem querer, pisando no calo de outro, não tendo uma nota menor para pagar o cafezinho, foi a fórmula que me ensinaram a usar e sempre usei nas situações em que, na minha opinião eram necessárias. Recebi em troca 6 “não tem de quê”, 2 “não foi nada”, e 1 “não se preocupe.

Não somos muito ligados a essas formalidades. Somos, como dizem, cordiais, desinibidos e pouco chegados aos protocolos.

Em compensação, acho que me pediram mais desculpas do que dei. Culpa minha, claro. Sou irremediavelmente desastroso.

Mesmo assim, nesses anos todos, que eu me lembre, a maior parte das vezes, depois de qualquer semi-agressão, indelicadeza ou falta de jeito de um tipo desconhecido, ouvi poucos pedidos de desculpas. Ao menos, faço questão de frisar, da parte de estranhos nas ruas, elevadores, condução ou cinema.

Aqueles de minha intimidade ou não me dão motivo para se desculparem de nada ou correm para verbalizar o pedido de desculpação. O normal é não ouvir nada depois do tranco, da botinada, ou do quase atropelamento sofrido.

O infrator – e para mim o bichão é um infrator – nem se dá ao trabalho de olhar em minha direção sequer para verificar se houve ou não maiores danos.

Nas piores hipóteses, e essas foram as que com mais intimidade lidei, o camarada dava uma palitada de pressão e, quando me encarava para dizer qualquer coisa, eu podia contar que era garantido um desaforo ou provocação.

Não, não somos tão mansos como dizem. Já ouvi “o que é que está olhando?”, “Qual é? Algum problema?”, “É isso aí!”, “Te vira, malandro!” e, se eu disser que dessas e desses escapei de boa, poderia contar contar com um pau garantido. No qual, é óbvio, eu levaria a pior.

Lembro como se fosse hoje, embora tenha sido em 17 de maio de 1958, dia chuvoso, por volta das 2 da tarde, que, na avenida Rio Branco, no Rio, um camarada de guarda-chuva se virou e quase me leva óculos e pelo menos um dos olhos para a calçada. De pronto, veio sua – é a única palavra – observação: “Adescurpa, moço”. Um caipira ainda não acostumado às incivilidades da grande cidade. Adescurpei-o, comovido com o inédito do fato.

Corte no tempo, outro nos meus pulsos, e chegamos a 2011 no Reino Unido. Um desses grupos que com verba oficial se encarrega de pesquisas absolutamente inúteis apresentou os resultados de anos de intenso labor.

Chegaram a conclusões precisas. Os cidadãos britânicos pedem “desculpas” pelo menos 8 vezes por dia. Isso significa, e o estudo não poupou minúcias, 2.920 pedidos por ano. Ou ainda 233.600 vezes no decorrer de uma vida de seus 70 anos.

E 1 em 8 pessoas admite se desculpar mais de 20 vezes por dia. Na minha opinião essa desculparada toda pode dar câncer ou, no mínimo, glaucoma. Perdão, sim, mas com moderação, if you please .

Explicação para o título destas anotações: no filme de estréia de Marlon Brando, "The Men", de 1950, dirigido por Fred Zinnemann, que no Brasil foi tristemente apelidado de "Espíritos Indômitos", a uma certa altura Brando, paraplégico, vai até sua namorada, Teresa Wright, e explica que veio para pedir desculpas. As legendas não tiveram por onde, lá estava: “Eu vim aqui pedir apologias”.

Claro que, molecão, e por estar às 2 da tarde no Cine Ipanema, na General Osório, dei sozinho e alto uma vasta gargalhada, sendo por esse motivo repreendido pelo casal vizinho sentado atrás de mim. Sou franco: não disse nada. Murchei. Mas também não mandei ninguém se roçar nas ostras, que, em geral, é nossa resposta predileta nesses casos

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