Ivan Lessa: Os homens que deixei para trás

A falta de "homem" e o rebuliço pelo dia fatídico, o casamento na família real britânica

BBC Brasil |

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A três por dois sinto falta dos homens que deixei para trás no Brasil. Saudades mesmo. Feito tenho do xarope de groselha e da cocada da baiana.

Os homens que deixei para trás. Aspeêmo-los que é para dar um pouco mais de dignidade para um senhor de minha idade. Os "homens" que deixei para trás. No Reino Unido, há uma grande falta de “homem”. Falaram do multiculturalismo, que isso tem que acabar, mas ninguém ousou falar na adoção de “homens” para os diversos afazeres diários e necessários para a boa sobrevivência nestas ilhas.

Todos os homens (deixemos as aspas de lado por uns momentos) da Grã-Bretanha têm uma profissão definida, à exceção dessa gentarada toda que vai se cobrir de arminho e joias de fantasia de luxo, todas dignas de pelo menos uma menção honrosa nos velhos bailes de Carnaval no Municipal, no decorrer do acontecimento do ano, da década, do século, exageram os monarquistas mais exaltados. Tudo porque vai haver casamento, digo, Casamento.

Quem nunca viu um monarquista exaltado ainda não viu nada. Mais engraçado que foca equilibrando bola no nariz em jardim zoológico ou filme do Gordo e do Magro. Tudo porque um príncipe vai se casar com uma moça. Plebeia, além do mais. Como no filme do Gregory Peck com a Audrey Hepburn, embora o casal, e todos os filhos que terão, não possuam, em conjunto, 0.5 % do charme e talento da hollywoodesca dupla.

Gozado, e bom mesmo, seria se o nobre levasse para o altar outro homem (mas sem aspas). Queria ver se ia haver essa quantidade brutal de quinquilharias que os mais sofisticados, aqueles com terceiro ano ginasial e que depositaram ursinhos e flores pela cidade inteira quando da morte de Diana, a Princesa de Gales, chamam de souvenires.

O inédito do enlace entre cavalheiros do mesmo sexo daria, ao menos, mais graça e vida, aos comentários que as pessoas que ligarem a televisão serão obrigadas a ouvir no dia – não há outra palavra – fatídico.

Afastei-me do meu tema. Como me afastei há mais de 33 anos de... sim, claro, como eu ia dizendo antes de tergiversar, meus “homens”.

Lá, eu e meus familiares (parece Fala do Trono) tínhamos “homens” para todas as ocasiões. Ocasiões periclitantes. A pia estava entupida, alguém dava a sábia sugestão:

- Tem que chamar o “homem” da pia!

Problemas com a antena de televisão?

- O telefone do “homem” da antena está naquele caderninho perto do telefone!

Doenças, sempre resolvidas com antibiótico, ligar para a farmácia e pedir para o “Zé da Farmácia” dar um pulinho aqui!

E assim por diante. Nada se resolvia sem um “homem”. “Homem” era profissão, e não essa besteira de administrador de empresas, torneiro-mecânico, otorrinolaringologista e por aí afora. Todos eram “homens”.

Como tínhamos “homens”! Disso e daquilo outro. Para todas as horas e circunstâncias. Bom mesmo era “homem”, não importa o que digam. Nós dávamos com o Zé no botequim da esquina tomando sua pinga e nos cumprimentávamos cordialmente. Ele dava um jeito (nem sempre grande coisa) em nossos problemas, nós retribuíamos com uns trocados extras para a cerveja. Não eram caros nossos “homens”. E deles me aposso de novo e digo, com todo o orgulho e a plenos pulmões fraquinhos, meus “homens”.

Aqui, acabou-se o que era doce ou dulcíssimo. Refresco de groselha, cocada e “homem”. Todos aqui nesta terra, mesmo os desempregados, vivem de benefícios sociais, são homens e homens profissionais.

Com raríssimas exceções. Eu só consigo chamar o pequeno armazém da esquina, que fica aberto até meia-noite de “o indiano da esquina”, embora o dono seja bengalês. E, last but not least , Norman. Que, no último sábado do mês, vem e limpa mais ou menos direitinho as 5 janelonas vitorianas de meu flat, a 3 libras cada uma. Não é caro. Também não cedo o telefone de seu celular.

Sobrou, pois, para mim, um “homem”: Norman, o “homem das janelas”. Vive-se do que resta da vida e que alguém decidiu que seja nosso quinhão. Que assim seja e continue.

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