Ivan Lessa: Os acocorados

Camarada sai de férias, deixa a casa desocupada e os cidadãos desabrigados possuem o direito de ocupá-la

Ivan Lessa, BBC Brasil |

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Para mim é tudo culpa dos camponeses. Ou, como prefiro chamá-los, campônios - parece mais pejorativo.

Foi antes de minha época, mas pelo pouco que sei chatearam horrendamente os citadinos. Curioso, mas a chamada Revolta dos Camponeses deu-se em 1380 ou 1381 (tudo era muito vago naquela época) e foi por aqui mesmo em Londres, com uma ou outra cidade adjacente aderindo.

Uma Londres que tive a sorte de não pegar e nem tenho vontade de ler a respeito. Sei que tinha à frente uma figura popular entre os bem-pensantes de hoje em dia, tal de Wat Tyler, lanceiro de Ricardo 2º, e o objetivo do levante era o de sempre: abaixo os impostos, menor jornada de trabalho, carteira de trabalho assinada, menos restrições aos escravos (que eles preferiam chamar de "serfs") e, quero crer, até mesmo um bom número de dias com férias anuais pagas.

Levaram uma fubecada. Não lhes ocorreu que foice e pedra perdem longe para espada, machado, lança e arco e flecha. No entanto deixaram - como tudo neste país deixa - restos e legados de sua existência.

Sou pouco versado no assunto, não tenho sobre ele rima ou métrica, mas, ao que parece, datam de então as raízes existentes até hoje dos squats e dos squatters.

Trocando em miúdo de minha moeda sempre em baixa, entendo que os - e vou traduzir para melhor depreciá-los, já que não são de minha simpatia - "acocoramentos" e os "acocorados" têm sua origem na tal Revolta ocorrida há 630 ou 631 anos.

O que acontece é o seguinte: camarada ou casal foi passar as férias em Eastbourne, não precisa ser Gstaad, deixou a casa desocupada e os cidadãos desabrigados, os sem-terra ou teto locais, possuem o pleno direito de ocupá-la. De ocupar toda propriedade considerada vazia.

Como o direito aqui é consuetudinário, o que já me complica as ideias, não sei se ir até a esquina comprar pão é considerado abandono de residência e os "acocorados" em suas casas podem se "acocorar" pelo tempo que quiser.

Não pesquisei porque o assunto me desagrada, mas catei num jornal desses distribuídos no metrô que, no momento, neste ano da falta de graça de 2011, há 20 mil "acocorados" "acocorando-se" em perto de 650 mil propriedades no país.

Entram, com o apoio da polícia e da lei, emporcalham tudo, jogam coisa à beça fora, roubam e depois esperam a lenta engrenagem judicial botá-los para fora. Atenção! Não há ideologia de qualquer calibre em jogo. Nada de toda propriedade é um furto. Não. Farra apenas e dribles na burocracia que cisma em persistir nestas terras a tudo dificultando.

Pensando bem, no Brasil, as favelas, que não deixam de ser terras ocupadas indevidamente, são squats e seus habitantes squatters, para dar, com o devido respeito, um pouco de chá e simpatia às nossas gentes que de cócoras não vivem nem nunca viverão, a não ser nas ocasiões em que a posição é rigorosamente necessária.

Resultam, nossos vastos e numerosos squats, em filmes de alta qualidade que ganham prêmios em festivais internacionais de cinema. De pé! Jamais "acocorados". O mais fascinante é que há "acocorados" legais e ilegais.

Leis que protegem os devassadores de lares, leis que os coíbem de excesso. Onde está o excesso nessa história? Uma coisa deveria ter me preocupado nesses anos todos de férias. Mais de uma vez, deixamos, minha mulher e eu, o flat fechado, sem gata, sem ninguém tomando conta.

Não vou me dar ao trabalho, mas é possível se "acocorar" num apartamento de terceiro andar mesmo com os outros dois ocupados ou só vale o golpe para um casarão inteiro? Como não pretendo mais sair de casa, sequer para ir comprar o jornal, o assunto não me diz mais respeito, mas o que ficou decidido e quais as reivindicações feitas nesse sentido pelo Wat Tyler?

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