Ivan Lessa: O trema

O circunflexo é o mais pobre dos diacríticos e aqueles que dele fazem uso demonstram caráter fraco e pobreza de espírito

Ivan Lessa, BBC Brasil |

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Assim como eu tenho uma arca carregada de revistas antigas e gibis, eu guardo numa pasta, dessas que já foi chamada de "executivo", sinais diacríticos em desuso. Diacríticos como acentos, cedilha, til e, principalmente, envolto em celofane, o trema.

Circunflexo? Eu nem te ligo. O circunflexo é o mais pobre dos diacríticos e aqueles que dele fazem uso demonstram caráter fraco e pobreza de espírito. O til é de uma vulgaridade ímpar. A cedilha lembra um C se aliviando, de forma vulgar, maculando o papel límpido, na frente de letras nobres, como o Y e o Z.

Os acentos, grave e agudo, foram feitos, expandindo o "bon mot" icônico do grande Ferreira Gullar, para humilhar a todos. Que deveriam fazer, isso sim, é (è) botar um X no lugar da assinatura e deixar a redação para aqueles com algum conhecimento de causa, feito os 40 "imortais" da Academia Brasileira de Letras, quando estes não estiverem ocupados com seus corretores discutindo investimentos nas casas editoras de Brasil, Portugal e suas ex-colônias.

Mas ah! o trema. Esse eu protejo como se uma figurinha difícil da coleção. Nunca pensei em trocá-lo por qualquer outra, por mais valiosa que fosse, e só umas duas vezes por ano tiro-o de sua inexpugnável proteção e mostro às visitas com sensibilidade para entender o que está em jogo com o sofisticadérrimo diacrítico.

Os britânicos chamam-no de "umlaut", dada a sua origem alemã (do século 19), e que pode ser rachada em duas porções: "um", por volta, em torno, e "laut", som. Na Alemanha, assim como na Holanda, na Catalunha e na França (que eles degustam tanto quanto queijo), o meu querido trema continua cumprindo missões gráficas equivalentes a operações perigosas como um passeio ao sol tórrido do Afeganistão ou do Iraque.

Nós, num passado não muito remoto, distribuímos tremas com rigor e generosidade criteriosa. Isso quando o objetivo da língua portuguesa era ajudar o cidadão a entender e pronunciar corretamente o que diante de seus olhos se passava.

Alguém no auditório ainda se lembra de como éramos antes da reforma ortográfica de 1943? Como um "maillot" de uma só peça e o lança-perfume, o trema caía como confete sobre palavras com U, nas formas "qui", "que", "gue" e "gui" a fim de indicar que eram átonas e deveriam ser pronunciadas, como "quinquênio" (para não dizerem como muita gente boa dizia "cuinquênio" e "saudar", para citar apenas dois exemplos).

E aqueles com olho de lince hão de ter notado que no meu "quinquênio" faltou o delicioso trema. Burlas da cibernética. Não consegui achar em meu teclado digital o carismático sinal diacrítco. Inépcia minha, por certo.

Fato é que, com o "acordo" (risos) de 1990, só as palavras de origem estrangeira têm (bai-bai circunflexo) o direito às duas gotas que, laços fora, declaram sua independência e mantêm (tudo bem, acento agudo?) seus olhos claros e bonitos como o colírio Moura Brasil. Feito Muller nenhum outro exemplo.

Minha alegria é reencontrar toda semana o trema, esse meus quindins, na revista The New Yorker, assinatura que um bonérrimo amigo me deu de Natal, e lá encontrá-lo em seu discreto esplendor nas palavras onde tem cabimento e cumpre função gramatical.

Registre-se que o trema, ou o "umlaut" como também o chamam os americanos, é tido e havido como arcaico por todas as publicações e estabelecimentos de ensino. Obama já o condenou para a prisão de Guantánamo e, no entanto, como vem fazendo a melhor revista do mundo desde o seu lançamento em 1925, o "umlaut" está mais que "alive and well", ajudando a quem não sabe, ou sabe mas é preciosista de estirpe, que o sinal diacrítico em questão serve para estipular sem deixar margem de dúvida, a pronúncia correta de uma palavra.

"Cooperate", para ficar num exemplo, leva ou carrega "umlaut" no segundo O, deixando claro que são 4 sílabas e não 3, ou, passando para um tópico em moda, "reelect", no segundo E, 3 sílabas de novo. Proponho um brinde ao trema. Agora é tentar salvar do "acordo" o hífen, embora, sabemos, isso seja, ao menos no Brasil, tarefa impossível.

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