Ivan Lessa: O sucesso do sacal

No domingo, em Londres, realizou-se a segunda Conferência da Chatice

Ivan Lessa, BBC Brasil |

selo

Apenas 35% da humanidade descobre, antes de chegar aos 30 anos, que a vida é chata.

Umas tragédias e desgraças tentam dar um certo sentido ao que fazemos, no que pensamos e por onde andamos. Mas diante da chatice avassaladora dos fatos, são pinto. Molho, apenas. Vã tentativa de dar algum colorido à condição humana.

Junte todos os filósofos, todos os cientistas, todos os homens que vivem, ou já viveram, do exercício tido como a disciplina de pensar ou inventar e não se vai encontrar uma única coisa que no fundo, ou mesmo às escâncaras, não acabe, ou, logo de cara, não comece ou acabe como uma suprema chatura.

Vá a sinonimia. Quantos sinônimos acha que vai encontrar para algo interessante? Uns 10 ou 12. Agora seja audaz, já que optou por ficar feito um bestalhão se metendo com essas tolices inenarráveis, e confira a sinonimia de chato.

O dobro, meu boneco, o dobro. Nimínimis, nimínimis.

De estalo e sem Vieira ou consulta, enumero de bate-pronto. Segura aí e veja se a sua "vida" não pode ser definida, e com mira segura, por um ou todos os adjetivos que se seguem: maçante, tediosa, enfadonha, sacal, chatura, aborrecida, chata (com e sem galochas), aperreante, aporreante, rebarbativa, entediante, aporrinhante, azucrinante, enfastiante, maçadora, quizilenta, enjoada, fastidiosa, morrinha, atanazante (ou atazanante, você escolhe,) quizilenta, trelosa, trelente - e vai daí.

Sim, claro, eu dei uma conferida nos tomos. A chatice me é familiar como um par de chinelos velhos. Calço-os e rastejo pela casa, sem muito que fazer, babando o mínimo possível, porque às vezes me dá vontade de me informar mais sobre essa tediosa condição em que nos encontramos todos.

Uma vontade estúpida e aperreante, de enfrentá-la na marra, nós dois que vivemos esse tempo todo entrelaçados tentando não ligar para os olhares curiosos de outra gente morrinha que ainda não se deu conta da extensão de sua servidão a Chongas, o deus dos chatos.

Na Inglaterra, ao menos, a chatice é estudada e praticada com a mesma diligência com que se coleciona selos (ô tédio!) ou se vai a concerto de Lady Gaga (Virge Maria!).

Jogam aberto, os ingleses. Têm uma certa intimidade com a vida, embora sua paisagem interior não difira da caatinga que vegeta em nosso pessoal do Norte.

No domingo, 27, em York Hall, bairro de Bethnal Green, leste de Londres, realizou-se a segunda Conferência da Chatice, que eles, pouco imaginativos, chamam de boredom, uma palavra das menos atraentes da língua inglesa.

A iniciativa se deve ao insuportavelmente treloso, quero e vou crer, James Ward, de 30 anos (tão moço e já tão maçante), que, no ano passado, tentou pela primeira vez e não conseguiu encontrar um único chato que se interessasse por tudo aquilo que não tem interesse. Na certa já sabiam, como eu, da dura realidade e preferiram ficar em casa.

Neste ano, no entanto, alguma coisa mudou. Talvez um efeito colateral da Primavera Árabe, das matanças da Otan (pronuncie Estados Unidos), dos movimentos anti-capitalistas, enfim, seja lá por que motivo quizilento quiserem, a coisa foi um sucesso.

James Ward encheu um auditório com sua capacidade máxima, a de 400 pessoas, cobrando 25 libras por chato, ou seja, uns R$ 43. Os organizadores, parceiros de Ward, ficaram ainda mais apalermados do que já eram.

Só pode ser a insuportável cibernética, acharam, tal como eu. Afinal Ward tem agora um blogue que leva o título de "Eu gosto de coisas chatas". Ainda não pegou os intoleráveis Twitter ou Facebook, mas, tudo indica, ele chega lá.

Como já me entendiei de falar no assunto, encerro citando apenas algumas das palestras aporrinhantes que mais sucessos fizeram, lembrando que cada chato tinha apenas 10 enfadonhos minutos para falar das atanazantes enjoativas de seus temas morrinhas:

- Conversa miúda que não coisa nem coisa de cima.

- A evolução dos secadores públicos de mãos.

- Os 10 primeiros anos da terrível revista Which?, que em cada exemplar examina um produto ou serviço comercial.

- A estética das zonas de estacionamento situadas nas alturas dos edifícios.

- Segurança e saúde nas máquinas de vendas automáticas.

- A impossibilidade de se provar que a raiz quadrada de 2 não pode ser expressada como fração.

Uma equipe canadense filmou para um futuro documentário o azucrinante evento dominical. Consta que o Canadá é a Nova Jerusalém da chatice humana. Os alemães - logo quem - deverão sediar o evento Chatice 2012. Deve ser culpa da estatuesca Angela Merkel.

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