Ivan Lessa: O Casamento - primeiros boatos

As histórias fantásticas que envolvem o casamento real, um "drama épico"

BBC Brasil |

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Nem bem a noiva disse “Eu gostaria de pensar mais um pouco” (e esse é o primeiro boato) começaram a ser espalhados, como era de se esperar os primeiros boatos a respeito do Real Enlace que nesta sexta-feira, dia 29 de abril, passa para a História como O Dia do Casamento de uma moça chamada Vilma (e esse é o segundo boato) com um rapaz de sangue vermelho como o de qualquer plebeu (e esse é o terceiro boato) que atende, ou não, dependendo de quem está chamando, pelo nome de Robby Flores (quinta linha e eu e minhas fontes, Carlos Espiridião e senhora, “dona” Belinha, Chepstow Villas, 38, flat B, Londres SW8 0NV, telefone celular 073158967, já conseguimos enfileirar três boatos de bom tamanho).

O clima na cidade é de festa, o tempo variável como um nobre, político (Tony Blair, Gordon Brown) ou diplomata não convidado para a cerimônia realizada, ou a se realizar, conforme o ponto cardeal, os fusos horários e o senso de orientação dos jornalistas, hoje na Abadia de Eastminster (mais um boato: 321 convidados, destituídos de um mínimo de luzes e um mapinha razoável da cidade, foi parar num lugar situado a 47 milhas de distância do verdadeiro local do drama épico).

"Drama épico?" dirão muitos. Dezoito pessoas pelo menos. Meu desfile único de boatos é o furo jornalístico do ano. Enquanto 18 mil profissionais vindos de todas as partes do mundo (só do Brasil, 1,7 mil, não contando os técnicos) se preocuparam com a narrativa daquilo que 2 bilhões de pessoas espalhadas pelos quatro cantos do globo estavam vendo, eu nem liguei para o vestido da noiva (era verde-pano-de-sinuca, se insistem em saber) ou o penteado dos longos cabelos negros como a asa do "watering martin", uma ave comum no nordeste da Inglaterra, daquele que uma maioria esmagadora (e olha que eles esmagam mesmo. Jornalismo moderno é fogo) insiste que era o Príncipe.

E tomem, de quebra, mais um boato antes que eu passe apenas a enfileirá-los como as peças derrubadas do bowling: na verdade tratava-se de um sósia especialmente contratado para confundir e, em seguida, apreender, um confuso terrorista malgaxe, o “Xacal com X”que jurara se vingar da Família Real pela morte de seu porco favorito, o “Sultão”, que, na verdade, o Special Branch da Scotland Yard conseguiu apurar, algumas horas depois do atentado felizmente frustrado. A tragédia do porco malgaxe não passava de morte das mais naturais na ilha de Madagascar: virar banquete aos domingos. Servido, aliás, com muita baunilha, uma especiaria da referida região do globo.

Mas vamos aos fatos. Ou ao que muitos divulgaram para o mundo como fatos. Que eu, municiado por minhas fontes fidedignas (Carlos Espiridião e “dona” Belinha), agora desmascaro e divulgo para as plebes atônitas e como que hipnotizadas pelos efeitos da hipnotização em massa malévola. Vamos lá:

* Hipnotização em massa malévola. A única explicação plausível para essa mórbida obsessão com a reunião, perante um Deus obscuro, e autoridades judiciais corruptas, de dois mortais. A coisa toda não passa de mais uma experiência que vinha sendo tramada, com verba do contribuinte, por uma equipe de cientistas menores da Universidade de Glasgow na Escócia.

* O príncipe em questão é imortal e faz parte de um grupo de heróis moldados em HQ mal desenhadas, de menor vendagem e, assim, subsequentemente, de menor vendagem. O grupo se auto-intitula “Justiceiros Nobres”. E mesmo em sua ficção jamais conseguiram apreender um ladrão de galinhas ou abrir um guarda-chuva durante um terremoto no Japão.

* A noivinha é plebeia. Terceira pessoa do singular do verbo “plebear”, inexistente em qualquer língua falada ou escrita no mundo inteiro. Ela queria mesmo é ser “plebéia” com um acento no “e”, conforme usou, com muita graça e elegância, como se fosse um chapéu de grife, ao lado do imponente Gregory Peck, a Audrey Hepburn naquele filme do William Wyler, "A Princesa e o Plebeu". Forças misteriosas impediram-na de ver seu sonho concretizado, logo no começo de sua nova vida, repleta de responsabilidades caridosas, Essas forças ainda darão muito o que falar.

* O Arcebispo da Cantuária, muitas vezes sofrendo "bullying", ou intimidação para os que preferem o idioma de Camões e Paulo Coelho, vem sendo cognominado (ainda mais essa) Arcebisbo de Canterbury. Pois o santo homem nasceu mulher e costurava para fora. Seu nome de pia batismal era Virginia Lillian Whitehorn. O médico responsável pela operação alegou “privação dos sentidos”, quando de seu julgamento em Melbourne, na Austrália, em outubro de 1965.

O resto? Jornalista precisa de assunto, de furos, de viagens pagas de primeira classe. O resto, pois, depois eu conto, conforme dizia o cronista social Ibrahim Sued, e o Miguel Gustavo encaixou o bordão num sambinha delicioso que o Jorge Veiga gravou.

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