Ivan Lessa: Mobo Bobo

Toda música popular de qualidade é de origem negra

Ivan Lessa, BBC Brasil |

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Aloysio de Oliveira, que fez de tudo em e para nossa MPB, de certa feita, em papo comigo, disse uma frase que nunca me saiu da cabeça: "Música popular de qualidade existem apenas 3 no mundo, a brasileira, a cubana e a americana".

Isso foi pela década de 60 ou 70, quando ele produzia shows, compunha, tinha sua gravadora e, quando forçado um pouco, cantava umas coisas lindas de morrer com uma voz que até hoje não mereceu a devida justiça.

Aloysio, um dos poucos camaradas a quem se poderia chamar de um gentleman natural, não era apenas de fazer vozes em desenho animado de Walt Disney ou narrar aqueles documentários sobre a vida dos bichos no deserto. Aloysio era um senhor cantor. YouTubai que verás, companheiro.

Fato é que continuo pensando no bon et vrai mot e achando cada vez mais que ele tinha toda razão. Atentem para o fato de que Aloysio, cuidadoso que era, frisou "música popular" e "de qualidade".

Com o passar do tempo, com o passar do bom Aloysio, fui escavocando cada mais essa espécie de "Abre-te, Sésamo" musical. De 1995 para cá, passei a generalizar por conta própria.

"Toda boa música tem origem negra", repetia como um bêbado chato enchendo os outros em mesa de bar ou festinha. E disparava a expor minha tese bastante ruim da cabeça e doente do pé, para citar o grande Dorival Caymmi.

Para incluir latino-americanos e franceses, já que sou doido por tango, bolero ou chanson, decidi que Enrique Discépolo, do "Cambalache", para citar apenas uma, ou o Charles Trenet de "La Mer" e "Que Reste-t-il de Nos Amours", quando compunham tinham a alma fantasiada de Al Jolson, puras fantasias em branco e preto.

Em suma, sendo bom, era de origem negra. Houvesse olho para enxergar isso, ouvido para escutar. Gosto também de lembrar, aos céticos, ou àqueles que equivocadamente resolvem discordar de mim, que Vinicius de Moraes repetiu e encaixou no Samba da Bênção que era "o branco mais negro do Brasil". Mais adiante, na mesma composição, tacou um "preto" para equilibrar as coisas.

Quer dizer, a turma da pesada era, como dizia Aloysio, cubana, brasileira e americana, mas de Gershwin a Tom Jobim, todos tinham a alma negra como a noite alta e o céu risonho (estou distribuindo citações musicais à beça; espero que os mais atentos estejam pegando).

Tudo isso - sou homem que vive de background - para chegar aonde eu deveria ter mergulhado de cabeça logo: em mais uma empulhação da indústria fonográfica britânica para tirar os poucos vinténs que a garotada local conseguiu auferir, talvez, nos recentes distúrbios, vem aí o prêmio ou promoção Mobo.

Desde 1996 que sobrevive com grande destaque nas páginas da mídia impressa e webpages especializadas, esta empulhação anual batizada de Mobo, ou seja, a premiaçao da Music of Black Origin. Tremenda enganação.

Toda música popular - de qualidade, como sentenciou Aloysio de Oliveira, ou de baixo nível, como acontece hoje em dia, não importa onde - é de origem negra. Bach, Beethoven, Mozart? Tinham também a alma da cor do mais negro ônix, feito o Vinicius.

Alma (diga soul) é sempre negra, feito uma semínima no pentagrama pautado ou sas de graúna.

Elvis, Mick Jagger: tremendos criolos. O pessoal não gosta de esmiuçar o assunto, mas é verdade. Válido para Vivaldi, Palestrina e Verdi. Negros todos, alguns com orgulho, outros morrendo de vergonha, mas negros todos.

Portanto, a sem-vergonhice que está na bica de ter lugar enfim, este ano, teve alguns críticos. Motivo? Racismo. Ao contrário, mas racismo. É que concorrem com cinco indicações (melhor revelação, melhor desempenho, melhor vídeo, melhor álbum e melhor canção) gente como Jessie J., que, espero, tenha digitado e ouvido falar nesse nome pela primeira e última vez na vida, e uma senhorita por nome Adele (acho que também costura para fora), ambos brancos azedos e destituídos de qualquer sombra de talento.

Correndo por fora, pálida, Katy Bo, outra branquela que só pode ser - afirmo no escuro - péssima. Nem sabem o que é negro, preto ou criolo. Coroando a festa toda, uma homenagem especial à falecida Amy Winehouse, branca azeda que, vivesse mais uns aninhos, poderia até chegar a não cantar mal, uma vez que ouvira e se deixara influenciar por cantoras negras americanas como Dinah Washington e Sarah Vaughan. Mas seu legado musical é uma tristeza.

Enfim, são brancos que se entendam e bom proveito quando gastarem os miúdos que tirarem da garotada. "Mobo bobo", titulei eu este texto, brincando e apelando para a composição de Carlinhos Lyra e Ronaldo Bôscoli que, almas do mais puro breu brasileiro, rindo muito, gostavam de contar como "interpolaram" o tema dos shorts de O Gordo e O Magro (A Canção do Cuco) para compor um dos sucessos que lançou a carreira de João Gilberto. É. Claro. Lobo Bobo. Fiau!

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