Ivan Lessa: Londresquistão

Manifestantes muçulmanos protestam durante o Dia do Armistício

BBC Brasil |

O sofisticadérrimo colunista Taki Theodoracopoulos, também milionário e playboy sessentão, passou por tudo e, exagerando um pouco, quase todos (melhor dizendo, todas) na vida. Tem uma coluna semanal na tradicional revista The Spectator onde conta casos ótimos e distribui alfinetadas certeiras dentro do melhor estilo jornalístico, estilo aliás infelizmente em extinção.

Taki não para quieto. Gstaad (sem pronunciar o G, claro) hoje, Nova York amanhã, Londres ontem. Londres. Que ele adora mas não suporta em que a cidade se transformou. Multietnização não é nem a dele nem com ele. É o Taki que só se refere à cidade onde passa uma boa época do ano, de restaurante bem a buate e senhoras e senhoritas em moda, como Londresquistão, conforme está no título deste texto.

Sim, sim, é duro, mas é verdade. O "pobre menino grego", como ele, filho de bilionário armador, gosta de se chamar, não é bem um admirador da crescente e cada vez mais visual comunidade muçulmana. Grego deveria ir devagar nessas horas.

Mas, com o dinheiro e o nome dele, dá para ele fazer a curva em U a mais de 80 km por hora. Principalmente se estiver no escurinho da casa noturna, no bem-bom de um jantar com os amigos ou deixando uma ficha de 500 libras no vermelho 27 no cassino mais em moda.

Queria ver ele, por exemplo, sair lendo em voz alta trechos de suas colunas mais debochadas em, para ficar num exemplo, Edgware Road, onde nossos irmãos islamitas fixaram uma de suas muitas residências ou marcantes presenças aqui em Londres - e insisto em continuar chamando de Londres.

Apesar dos acontecimentos de quinta-feira passada, dia 11. Remembrance Day. Também conhecido como Dia da Papoula (abundavam nos campos mortíferos de Flandres) e ainda Dia do Armistício ou Dia dos Veteranos. É quando os países da Commonwealth comemoram, com o devido respeito, seus mortos em tudo quanto é guerra. Principalmente na Primeira e na Segunda Guerra Mundial.

Na Primeira, cerca de 37 milhões fizeram o chamado supremo sacrifício. Na Segunda, por volta de um milhão. Feridos? Nem falar. Sequer pensar. Mas no 11º dia do 11º mês na 11ª hora são observados no país, dois minutos de silêncio. Pois foi às 11h00 no dia 11 de novembro de 1918 que se assinou o Armistício.

Neste ano, 2010, eu estava na caixa do supermercado. Todo mundo quieto. Eu inclusive. Sou hóspede. Respeito meus anfitriões. Não tenho queixa da maneira que por décadas me trataram. Ainda senti uma ponta de remorso por não ter comprado a onipresente papoula que se usa na lapela e cujos trocados auferidos vão para os que sobraram não digo da Primeira Guerra, que dessa se foram todos, mas da Segunda, que ainda tem bastante.

Os mortos no Afeganistão e no Iraque, duas guerras, ou invasões, das mais controvertidas, também são homenageados. Guerra é guerra, não é assim que se diz? Então...

Acontece que, perto de onde moro, em Kensington, manifestantes muçulmanos (não muitos, uns 30) queimaram uma papoula gigante e ostentaram cartazes com dizeres - digamos assim - algo pesados. Num deles lá estava: "Que o Inferno queime os soldados britânicos". O grupo se auto-intitula "Muçulmanos contra as cruzadas". E "O Islã predominará". Ainda: "Nossos mortos estão no Paraíso, seus mortos no Inferno".

A nação, em peso, comemorando o armistício, homenageando uma paz das mais tristes. O chato é que entendo o protesto. Posso discordar do tom. Mas entendo. Sim, houve confronto físico. Um policial foi parar no hospital. Dois muçulmanos presos por criarem distúrbio à ordem pública.

Estudantes contra o aumento nos custos do ensino também andaram botando para quebrar. Literalmente. Como sempre, a manifestação estudantil, pacífica em sua origem, foi sequestrada, segundo seus líderes, por grupos radicais. Nada a ver com religião. Dinheiro. Instrução. Medidas governamentais. Chato, mas é isso aí.

Paris tem visto coisa bem pior. E Bagdá e Cabul também. No que enfio a viola no saco e vou cuidar de outras coisas. Mas que há um certo quê de Londresquistão no ar, lá isso há.

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