Ivan Lessa: Listagens

A mania da popuçação mundial de se debruçar sobre listas e Top 10

BBC Brasil |

1. 1935. 2. 1942. 3. 1958. 4. 1951. 5. 1954. 6. 1957 7. 1960. 8. 1968. 9. 1970. 10. 1975.

1. Caninho. 2. Nilson “Sapato Esquerdo” 3. Nelson “Sapato Direito” 4. Apollo 5. Sérgio Jameba 6. Antonio Maria 6. Paulo Francis 7. Renato “Escrivão” 8. Carlos Aragão Netto 9. Sra. Maria Teresa Aragão Netto 10. Paddy O'Shaughnessy.

E eu poderia continuar fazendo listas e relações até não poder mais. Aliás, ainda pego uma listagem quando insone ou durante longa viagens de trem, avião, ônibus – e o rol de condições para a tediosa ocupação não tem fim.

Se eu tivesse jeito, melhor estaria se soubesse manejar um desses joguinhos que vejo as pessoas nos metrôs, restaurantes, bancos de praça pública (outra listinha querendo meter seu bedelho onde não foi chamada nem é querida) se ocuparem com atenção e, quase sempre, indevido entusiasmo público.

Eu enumero, tu enumeras. Um verbo declinado pelo menos 10 vezes por dia em circunstâncias, publicações e, terceiro lugar, informática. Eu comecei chato e obscuro como me parece ser a vida de uns dez anos para cá (2001, foi o terceiro pior ano de minha lista de piores anos de minha vida). Fui sendo pessoal como um jornalista sem carteirinha ou diploma.

Primeiro, enumerei os anos favoritos de minha vida. Em seguida, dei a relação de meus melhores amigos no decorrer da mesma. Com isso, tenho a certeza de ter perdido os 18 leitores que ainda me sobraram (feito os torcedores do Botafogo, os 18 do Forte em 1922, os 18 de... mas contenho-me e não vou adiante nessa).

Estão certos os leitores que se mandaram. Como diria o Ronald Golias naquele que é um de meus 10 bordões favoritos da história do humor televisivo e radiofônico do Brasil: “Vão pará com essas lista aí?!”

Quem dera. Deu-me na veneta, como só me sabem dar as gírias antigas, de googlar o fenômeno. Mal coloquei naquela janela alongada as palavras “10 mais” para surgirem 476,000.000 seguidos, embaixo do dado “0,07 segundos”. Uma loucura.

Tivesse eu digitado palavras como “sacanagem” ou “mulher nua” e, tenho a certeza, não choveriam tantas listas. Fuçei aqui e ali e reparei no fenômeno de nosso pronunciada anglicidade (uma das 10 palavras que precisam ser cunhadas em português do Brasil): só dava top. Que além de “pião” também pode ser “topo” ou “pico”.

Era Top 10 que não acabava mais. Das melhores e piores listas do mundo. Das celebridades, das mulheres mais lindas da net, de blogueiros, de tipos prediletos de bumbum (safadeza é inescapável), 10 piores manias de pobre, 10 piores alimentos para a saúde. Já que comecei não consigo parar, uma vez que esse troço é feito resfriado (e 9 outros males menores) e pega que é uma loucura.

Até a Veja, pouco chegada a essas bobagens, deu “presente” com as 10 melhores animações de todos os tempos, Uma sítio lá (9 em 10 pessoas preferem dizer site rimando com Light (lembram?). Outro – blog ou blogue, quero crer – destoa optando pela originalidade: foi de 20. Os Top 20 de sucessos nas rádios do Brasil.

Uma coisinha: se chamou de top, creio que o número, ou os números, quando pronunciados, devem vir todos em inglês, confere? Mais um caso tipo de bullying, ou intimidação, da língua do americano agora provado nato, Barack Hussein Obama.

O que mais me impressionou, e estou até agora estudando, é um sítio (será pueblo lá?) dedicado a, e esse é o nome do local da façanha ou blogue, “Top Gente Boliviana”. Aguardem relação completa e desconstrução parcial do fenômeno aqui mesmo neste espaço.

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