Ivan Lessa: Festival 11\9

Na festa de documentários do 11 de Setembro, só um jornalista britânico faz a pergunta certa

BBC Brasil |

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Basta passar perto da televisão que ela se liga sozinha. Está calibrada, ao que parece, para documentários sobre o dia 11 de setembro de 2001 (11\9 para nós).

Sei ainda, como todo mundo, onde estava e o que fazia. Com uma gripe forte, ficara em casa e estava tomando uma sopa de tomate. Claro, grudei na TV e por lá fiquei o resto do dia e da semana. Atônito e, inevitável, me lembrando do dia em que almocei no restaurante das torres gêmeas, aquele que se chamava das “janelas sobre o mundo”. 9\11 ou 11\9 mudou tudo, mexeu com nós todos.

Em 2003, ficou decidido que fora tudo coisa do Saddam Hussein e suas “armas de destruição em massa” e a única solução era invadir o Iraque, matar o maior número de pessoas possíveis, julgar sumariamente o ditador, enforcá-lo, dando ao mesmo tempo uma chegadinha no Afeganistão com as forças aliadas (como apareceram aliados na época) para garantir a liberdade não só dos dois países em questão (coisa decidida lá pelos que mandam nesta Terra) como livrar o mundo do terrorismo árabe.

Atentado e invasão foram, para todos os efeitos, passados quase que em nuvens sujas como aquelas que cobriram a ponta sul da ilha de Manhattan naquele 11 do 9. O importante era fazer alguma coisa. E, se houvesse um lucro na história, além da vitória das forças do Bem contra as do Mal, tudo bem.

O jornal que eu lia, e ainda leio online, é o The Independent, carinhosamente chamado por seus leitores de The Indy. Esse jornal nasceu pronto em 1986. Lindo de morrer. Bem paginado, tremenda equipe de editores, jornalistas, repórteres e colaboradores. Antológico desde o primeiro dia nas bancas.

Depois, como tudo que é bom dura pouco, em 2003 tabloidizou-se em seu formato físico, pois essa era a tendência, embora mantendo sua posição de esquerda, uma posição dura de se manter hoje em dia mas a única que paga a pena.

Falar em pagar: o Indy nunca vendeu mais que 200 mil exemplares e nessa continua até hoje. Mudou de dono. Pertence agora aos Lebedev, pai e filho, oligarcas russos, como virou moda, mas, tudo indica, gente boa. Ninguém ficou ou vai ficar rico com o jornal. Mas é o mais confiável de todos.

E abro parágrafo para apresentar meu jornalista inglês predileto: Robert Fisk, que estava presente no lançamento no jornal e, mesmo tentado, quando de uma debandada geral, manteve-se firme no posto.

Montou sua barraca de profissional em Beirute e lá está há 30 anos. Tem vários livros publicados, começou cobrindo os eventos na Irlanda do Norte (e logo para quem? Rupert Murdoch, do Times, mas logo se desentendeu com ele e se mandou, após cobrir a revolução em Portugal em 1974), e, em 1989, passou a cobrir as invasões aliadas do Afeganistão e do Iraque para o The Independent, onde, felizmente, continua até hoje.

Escreve quase todo dia longos artigos acerbos ou instigantes mas sempre da maior legibilidade, sempre fugindo do que se está acostumado a ler. Ganhou uma certa má fama de seus pares quando se referiu a eles como cumprindo o que chamou de “jornalismo de hotel”, ou seja, ficavam esperando o zumzum vir a eles e não eles às origens e aos porquês dos zumzuns.

Segundo Fisk, muito citado em aula de jornalismo, uma de suas frases de placa é a seguinte: ”O jornalismo deve desafiar toda autoridade, principalmente quando os políticos nos levam às guerras”. Sejamos claros, que Robert Fisk sempre o é. Conforme também escreveu a respeito do 11 do 9: “Trata-se de um crime hediondo contra a Humanidade.”

Nesta semana em que já levaram e ainda vão levar mais de 10 documentários na TV, Fisk escreveu um artigo para se guardar e memorizar, se possível. Cito um parágrafo vital para se compreender como ele encara a situação:

“Por que, pergunto eu, após 10 anos de guerra, centenas de milhares de inocentes mortos, tanta hipocrisia, traição e torturas sádicas praticadas pelos norte-americanos e pelo Talebã? Teremos conseguido calar o mundo e nós mesmos com nossos temores? Continuamos incapazes de pronunciar as seguintes sentenças: os 19 assassinos do 11 do 9, vindos de Hamburgo, alegavam ser muçulmanos. Sua origem estava num lugar do mundo chamado Oriente Médio. Há algum problema por lá?”

Repito, friso e sublinho: há algum problema no Oriente Médio?, pergunta Fisk com a mão pesada da retórica. Podem ir nessa sossegados: ele está falando de Israel. Raríssimo em qualquer imprensa do mundo.

Em suma, vem sendo ignorada a primeira pergunta que um detetive investigando um crime deve fazer: por quê? O povo norte-americano e o mundo não receberam uma resposta adequada ou mesmo esfarrapada à simplicidade dessa questão: por quê?

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