Ivan Lessa: Felicidade, geral e de arquibancada

Ideias sobre a "Ação para a Felicidade", que ganha terreno na política britânica

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Nietzche sabia das coisas. O bigodudo alemão escreveu em "O Crepúsculo dos ídolos" que "o Homem não aspira à felicidade; só os ingleses é que tentam."

Não deu outra. Vira, mexe e lá, ou melhor cá, estão os políticos a falarem em felicidade para cima, para baixo, para os lados. Surgiu agorinha mesmo a "Ação para a Felicidade", nome que poderia ser válido tanto para a retirada do Afeganistão quanto o bombardeio contínuo da Líbia.

No caso, a empreitada se diz um novo movimento maciço destinado a criar uma sociedade mais feliz. Não conheço país ou candidato a vereador que tenha optado por uma plataforma ou agenda com o objetivo específico de espalhar a infelicidade entre povinho e povão. Quando bate a infelicidade é inépcia dos governantes ou terremoto seguido de tsunami. Por aí.

Na verdade, felicidade só entrou para o terreno da política após o Iluminismo com a Constituição norte-americana, que mencionava o até hoje mais que discutido direito "à busca da felicidade". Em busca da felicidade estiveram de Al Capone a George W. Bush e é o caso de se parar, pensar e fazer como tanto acadêmico fez e fará: escrever uma complicada tese a respeito.

A "Ação para a Felicidade" aqui no Reino Unido, e os políticos que a pregam ou a ela juntaram seu esquema, vem sendo acusada de grandiosidade, chover no molhado (e no seco também) e pura demagogia das mais vazias.

Um panfleto do movimento indica 20 ações práticas para se chegar à felicidade. Não se trata de adaptação de livro de Paulo Coelho e, até onde se sabe, nosso laureado escritor não colaborou na sua feitura. Mestre Coelho continua simplesmente sendo feliz e que assim seja por muitos anos. Não. Foram necessários varios estudiosos para elaborar as 20 ações práticas, oito a mais do que os passos necessários para deixar de beber água que passarinho não bebe.

Ah, sim. Entre as "ações práticas" constam alguns itens interessantes. Por exemplo: as pessoas devem se abraçar mais, fazer mais exercícios e dizer “obrigado” com maior frequência. “Não tem de quê”? Esqueceram de acrescentar.

Curioso, ou gozado, nessa bobagem toda é encontrar nomes respeitáveis entre aqueles que apoiam a ação. Lá estão o economista Richard Leyard, da LSE (Escola de Economia de Londres) e Geoff Mulgan, ex-diretor da unidade estratégica do governo. Estudiosos e acadêmicos de primeiro time também estão rindo alegres, suponho eu, do que poderá virar política, inda que extra-oficial.

Nem todos reconhecerão os nomes de economistas como Andrew Oswald, David Blanchflower e Richard Easterlin. Ou do psicólogo Jonathan Haidt. Sim, eu sei, não são citados no pub como Lady Gaga ou Wayne Rooney, mas – e vocês terão de aceitar minha palavra – são gente citada e citável.

A medida já atravessou o canal da Mancha, acabo de ler. O popular político francês de estatura quase que média, Nicolas Sarkozy, já nomeou dois laureados com o prêmio Nobel para examinar as possibilidades de utilização da medida por aqui surgida, só que, por lá, em desempenho econômico: os populares Amartyn Sen e Joseph Stiglitz. Bonne chance, mes amis!

De minha parte, só tenho a lembrar nosso folclore urbano de tempos passados, pois é de tempos passados que me ocupo, feliz, no presente.

"Em Busca da Felicidade" era uma radionovela que marcou época e foi transmitida em 1941 pela Rádio Nacional. E aterrisso no Galeão citando, coisa muito melhor que Nietzche; Tom Jobim. Como ele disse em algumas das estrofes de "A Felicidade", "tristeza não tem fim, felicidade sim". E, ainda no mesmo clássico de "Orfeu da Conceição", "a felicidade é como a pluma... a felicidade é como a gota de orvalho".

Só não é, juro, maquinação política.

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