Ivan Lessa: Eu me esqueci de comer menos

Fome é o preço da solidão amorosa, mas há cientista que diga que perda de memória e dieta reforçada estão relacionadas

BBC Brasil |

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Terça-feira foi Dia dos Namorados e, embora ninguém tenha me dado um doce ou enviado cartão com ursinho, comemorei sozinho comendo demais: café da manhã, almoço, jantar e, se bobeassem, ceia por volta das 11 da noite também.

Fome é o preço da solidão amorosa. Nunca conheci ninguém que fosse obeso e muito namorador.

Eles esquecem de Fulana ou Sicrana, não a reconhecem quando passam na rua. Eles preferem bolo de fubá. Pensam o tempo todo em pastéis de queijo ou palmito e sonham com a lipoaspiração, como se esta fosse uma condição de vida beirando o fanatismo religioso.

Engordar, para eles, é o único objetivo porque o Homem está na Terra. Com a engorda vai se esquecendo cada vez mais das coisas. O que não deixa de ser uma boa se pararmos para pensar em como as coisas vão.

Embora magro, e perdendo peso a cada dia, tenho mais fome. Fome de coisas que não dependam do microondas. Fome de um paladar que se foi. Fome de garçon com a bandeja ou tia servindo a rabada.

Então fica combinado assim: eu fico com fome, não engordo e, em compensação, não perco por completo o contato com a porção espartana de realidade que me sobrou.

Cientistas americanos – que eu os tenho sempre na mira de minhas armas – garantiram para o mundo que há um vínculo palpável entre a perda da memória e uma dieta na base das calorias reforçadas. A descoberta foi produto da serendipidade.

O pessoal estava, na verdade, estudando os primeiros sintomas da demência, que eu, quando me lembrava de tudo (letra de marchinha, por exemplo), gostava de a ela me referir como "dementia praecox", para alardear minha intimidade com os clássicos da literatura latina e os párias do pedantismo pátrio.

Agora, tem gente que vem e chama de Alzheimer, que, se estou bem lembrado, foi um filósofo que morreu de uma tartarugada que lhe deram na cuca. Ou talvez eu esteja trocando as bolas, os filósofos e as tartarugas que caem do céu.

Demências ou por aí, né? Estamos há 24 horas do Dia dos Namorados e a umas poucas mais do Carnaval, vale pois espalhar confete, jogar a serpentina no meio do salão e lembrar, saudoso, do lança-perfume que já não existe mais.

Ah, sim! Acho que me esqueci de dizer que comer demais, além de afetar as faculdades mentais e bater bola com nossa mente, nos coloca fantasiados de Catedral Submersa ou Odalisca Rica em junho, por exemplo, na Venezuela. Calorias demais sempre acabam em bobagem.

Tudo isso me vem à mente sempre conturbada depois que fiquei sabendo que a Academia Americana de Neurologia, a se reunir em seu 64º encontro em abril que vem em Nova Orleans (onde também há carnaval só que com nome francês, Mardi Gras, terça-feira gorda, se messiê aí não sabia), deverá apresentar o resultado de seus trabalhos na alegre ocasião.

Algum membro da Academia resolveu espalhar a boa nova antes, como uma espécie de trailer, só para despertar o interesse de curiosos gordos e esquecidos e magros atentos. Deve ser um obeso. Ou magricela metido a besta.

O que me dá uma baita de uma fome. Agora é só não me esquecer do lanche: café com leite e dois croissants.

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