Ivan Lessa: Enfeites e fetiches

Os ditames da moda, como a polícia, não chegaram aos acampamentos anticapitalistas

Ivan Lessa, BBC Brasil |

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Eu não gostaria de ser mulher nos dias que vivemos. Na verdade, eu não gostaria mesmo de ser homem. Prefiro a condição de velho caquético e estrangeiro perdido em qualquer parte do mundo. Babando, sim. Mas pacífico, bem humorado, paciente.

Os jovens que se flagelem, que é para isso que a idade serve e melhor faz: protestar, drogar-se em nome de um mundo melhor, ocupar praças, empunhar cartazes com dizeres bisonhos, não ter a menor idéia do que se está fazendo ou querendo.

Pena que, neste século, desta vez, não tenha surgido, com as ondas de reivindicações ao menos uma musiquinha razoáel como há algumas décadas. Uma juventude, e nem tanto, vestida e enfeitada com a mesma falta de imaginação com que em mal-cheirosas praças combatem o "poder".

Os ditames da moda, como a polícia, não chegaram aos acampamentos anticapitalistas. São de uma sem-graceza sem precedentes os manifestantes. É o caso de parar e pensar nas vantagens do capitalismo.

Vamos deixar essa rapaziada às voltas com sua falta de higiene e inarticulação e dar uma chegada ao mundo aonde se passam as coisas que tenham alguma coisa a ver com a realidade. O mundo.

O mundo é uma moda que pegou e agora ninguém mais a agarra. São todos modelos desfilando na passarela da vida -- e que ninguém deboche da frase-feita porque é a pura verdade.

Dos banqueiros na fila das bonificações ao miserável na esquina pedido uma "esmolinha pelo amor de Deus". Não acamparam em parte alguma, mas vão levando e, para mal e muito pior, inovando sempre.

Outro dia falei no caso do menino aqui na Inglaterra que botou saia para protestar contra o uso obrigatório nos colégios de calças compridas no verão. O jovem não só contestou como lançou moda.

Para verem como moda e protesto estão ligados.

Outras coisas me interessam. Pesquisas, em geral. Pesquisas são um cacoete que servem para pendurar empregos e que merecem uma boa pesquisa, dessas de tirar sangue do lombo dos pesquisadores.

Ninguém e nada estão a salvo de uma pesquisa. Elas não querem dizer rigorosamente nada, não causam o menor efeito, mas há sempre espaço para elas nos jornais, nos telejornais, nas bloguices do mundo online em que passamos a viver.

Fiquei sabendo, por exemplo, cortesia de uma instituição que não citarei para não dar camisa a ninguém, a que conclusão chegaram pesquisadores regiamente pagos para desatar os nós em que vivemos atados.

Descobriram, essa gente boa, que mais de um terço dos patrões do Reino Unido acham que suas companheiras de trabalho usam muita maquiagem.

Esmiuçando seus achados, os pesquisadores (usarão peruca? Fiszpan?) descobriram que um batom vistoso, desses que acende uma sala de escritório, é o mais mal visto de todos. 32% de chefes e gerentes acham que as cores fortes nos lábios atrapalham o bom andamento dos trabalhos. Em segundo lugar, com 28% dos votos dos juízes, chegou a maquiagem excessiva e, terceiro no pódio, medalha de bronze, o ruge em excesso.

Nem tudo está perdido, ó Jezebéis do labor! Mais de um em cada dez patrões alegaram alegres que gostam de um pouco de make-up. Para eles, das 9 às 5, e sabendo taquigrafia, até que pega bem. Mas frisam: um pouco só de maquiagem. Nada de exageros.

O "estudo" foi feito online pela officebroker.com (não aguentei e dei o nome do santo). Ao que tudo indica, não foi levada em conta essa moda anticapitalista global da perfuração de orelhas, e outras partes menos óbvias do corpo humano, ou a mais recente: a de aumentar com cirurgia doméstica o tamanho dos lóbulos das orelhas (alguns já estão sendo decorados com pires de cafezinho, outros com bule de chá). Esses terão de ficar para outra vez.

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