Ivan Lessa: E-mail x E.Coli

Pesquisa aponta que, no Reino Unido, 1 em cada 6 celulares está infectado de matéria fecal

BBC Brasil |

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Não tenho celular. Pronto. Saí do armário para espanto e desgosto das classes baixa, média e alta do mundo inteiro.

Daqui posso ouvir os murmúrios críticos de todos. Algumas almas cristãs são mais piedosas. "Coitado! Ele não tem celular", exclamam para quem quiser ouvir e, de certa feita, uma delas chegou mesmo a tentar me passar uma nota equivalente a 100 reais.

Como eu não tenho amigos, sou bicho do mato e antissocial, não há como e nem porquê ou a quem explicar minha bizarra atitude ludita. E, nessa frase que acabei de digitar (o computador é uma mula de trabalho), acabo de esclarecer minha jurássica condição nesta era de frenética comunicação e malhas e mais malhas de redes de comunicação a captar pessoas.

Se estou me explicando demais, o distinto que me honra lendo minhas confissões informatizadas saiba que o que estou fazendo é o equivalente a ficar sentado no meio da calçada, expondo a perna inchada, ou murcha, sem chapéu em cima de jornal à espera de esmola.

Não. É o contrário. Mendigo apenas devido à alma exibicionista que Deus me deu e para chocar o público passante em seu passinho rápido rumo às compras, ao consumo desenfreado e, depois, rumo a um protesto contra a ganância corporativa.

Coitados deles, isso sim. Não estão ligando para esse tsunami de protesto contra as classes ultraprivilegiadas e superabonadas. Alguém me dirá que o movimento, se tal é, nasceu e se espalhou graças à proliferação das redes de comunicação,Twitter, Facebook, etc e tal. E, isso é importantérrimo no caso, via celulares, falando ou textando.

Barbudo, beirando o repelente, exclamo como os que se sentam na calçada e, berrando para o nada e ninguém, exclamo: "É, mas celular entrou com quase nada na jogada. Mesmo assim...". Até que uma autoridade vem e me dispersa como se eu fora uma multidão irada. Com a molecada atrás uivando, "Maluco! Maluco!".

Sei ler e sempre que posso, e haja algo que valha a pena, leio. Sendo interessante, passo adiante por qualquer forma de comunicação, das nuvens de fumaça, feito os índios americanos (sim, eu sei, o correto é native american), ao código morse ou gritando numa esquina, ainda no meu avatar de sem-teto e sem-vergonha.

Acho que vale a pena aborrecer o máximo possível de possuidores de celulares, tal como me aborrecem eles. Com a arma da verdade científica.

Está aqui no jornal da semana passada. O telefone eletrônico, esperto ou não, é uma porcaria. Não precisa de apagões. É uma porcaria e pronto.

Com meu cajado, saio pelas ruas – "Olha o maluco!", continuam gritando os moleques – e espalho aos berros a verdade exposta pela ciência.

Divulgo, com alarde, a notícia de que, aqui no Reino Unido, após meticulosa pesquisa científica, estudiosos abalizados chegaram à conclusão de que 1 em cada 6 celulares encontra-se infectado de matéria fecal.

Os cientistas verificaram no decorrer de suas pesquisas que os donos e mestres de um celular não lavam as mãos depois de irem ao banheiro. Isso apesar de que quase todos os britânicos terem jurado de pés juntos que lavavam "depois" as mãos. E com sabão.

Os cientistas, céticos como eu na calçada, constataram que, além de nove em cada dez celulares, oito em cada dez mãos mostraram claros indícios de estarem repletas de bactérias.

O E.coli (E de escherichia), uma perigosa bactéria de origem fecal, foi encontrada, como apontei no início, em uma de cada seis mãos. É o E.coli o responsável por desarranjos estomacais de várias magnitudes e ainda há pouco foi o responsável por um surto fatal de intoxicação alimentar na Alemanha. Corre, por vezes, com o nome e as cores de "coliforme fecal".

O Dr. Val Curtis, da Escola Londrina de Higiene e Medicina Tropical, disse esperar que "a simples ideia de estar com as mãos ou os celulares impregnados de E.coli encoraje mais as pessoas a um asseio maior nos aposentos sanitários". Mais: os londrinos foram os britânicos que mais E.coli apresentaram nas mãos.

O revelador estudo foi divulgado no sábado, dia 15 de outubro. Dia, frise-se, do Global Handwashing Day (Dia Global da Lavação de Mãos), quando estava todo mundo protestando contra certas facetas pouco saudáveis do capitalismo.

Só posso dizer, sem titubear, e deixando meu lugarzinho na calçada, "Olha, querem saber de uma coisa?, disso tudo eu lavo minhas mãos".

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