Ivan Lessa: Doutor, eu te amo

Pesquisadores americanos analisam número de pacientes que se apaixonam por seus médicos

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Não, não. Alcacelça e muito líquido bastam. Não precisa chamar o médico. Mesmo sem ressaca de quarta-feira de cinzas deixe o camarada em paz.

Em geral, e isso é muito natural, as pessoas, mesmo as mais machonas, acabam tendo um deslize em sua sexualidade e passam do simples respeito e cordialidade para com os guardiães de sua saúde para aquilo que, no mínimo, poderíamos chamar, e chamávamos, de rabicho ou xodó em relação aos ilustres doutores. Nada de chegar ao ponto de atear fogo às vestes, mas é por aí. Com certos professores se dá o mesmo.

No entanto – e há sempre um "no entanto" – um estudo (também como os há e às pencas) realizado nos Estados Unidos examinou os pacientes recém-egressos, lépidos e fagueiros, de hospitais e chegou à conclusão de que os que não sucumbiram à experiência (28% pedem o boné) voltaram à vida normal satisfeitíssimos com suas receitas para os mais recentes calmantes e soníferos receitados pelos médicos que os atenderam, disso resultando o rabicho examinado.

Em matéria de saúde, satisfação é como no restaurante: sinal de que se está numa boa e as pessoas com uma disposição muito melhor para seguir as instruções do ilustre doutor que delas cuidou. O que atrapalha, como em tudo mais, são os excessos. Não é necessário sair de armário algum ou mandar bombons e flores para o homem ou mulher que lhe permitiu voltar ao que você chama de "vida normal".

Pense bem, você faria o mesmo para o farmacêutico que lhe aplicou a injeção de necroton, mesmo no traseiro? Confere? Pois então.

O que acaba acontecendo é que para ver de novo, ou com a regularidade que o coração exige, o objeto de seu afeto, John ou Mary acabam marcando consultas desnecessárias e inventando "dorzinhas aqui do lado" para satisfazer suas necessidades amorosas.

E o amor, conforme o carnaval acaba de nos ensinar, não tem sentido, não é mão única ou dupla; o amor ou é ou não é.

Os autores americanos do estudo sobre como um médico pode ser ruim para nossa saúde pertencem à Universidade da Califórnia e eles mesmos resumem desta forma suas conclusões: "Dar ênfase demais no contentamento de um paciente pode criar efeitos negativos."

Brenda Sirovich, do Departamento Médico da Universidade de Vermont, a respeito do assunto teve o seguinte a dizer em artigo publicado em outra publicação médica: "Ao passo que a maior parte dos americanos sabem avaliar corretamente o que há de errado com suas máquinas de lavar roupa ou secadores de cabelo, o critério empregado para quem cuidou de sua saúde pode ter uma validade das mais precárias."

Num clima triste, de pierrô desiludido por colombina no carnaval do qual só restam agora cinzas, exclamo com minha saúde combalida e sem ninguém que por ela zele: "Ficarei em meu canto chupando o picolé da solidão e me lembrando apenas do Zé da Farmácia, que nos dava, na praça General Osório, uma mãozinha depois de um pifão."

"Bridagadim, Zé. Jamais te esquecerei. Tanto de você quanto da Zilda fantasiada de havaiana." Foi bom enquanto durou.

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