Ivan Lessa: Dominique vai fundo

A função do FMI não é faturar arrumadeiras, camareiras, ou até mesmo boys de hotéis de 3 a 5 estrelas

Ivan Lessa, BBC Brasil |

O Fundo Monetário Internacional (FMI) é uma organização internacional, como o nome indica, que se preocupa e ocupa em ver, tocar e até mesmo cheirar o funcionamento interno do sistema financeiro mundial mediante o monitoramento das taxas de câmbio e da balança de pagamentos.

Em princípio, sua função não é a de faturar arrumadeiras, camareiras, ou até mesmo boys de hotéis de 3 a 5 estrelas. O FMI já conta com 70 anos e possui 187 países amigos no rol de suas preocupações.

O FMI já teve 10 diretores-gerentes, europeus todos. Muitos descontentes bem informados, inclusive as equipes que trabalham em hotéis de 3 a 5 estrelas, nos grandes, médios e pequenos centros mundiais, veem com uma justificada desconfiança esse incontido eurocentrismo. Há gente falando em ter à testa da monetária entidade alguém oriundo de um país emergente só para ver em que bicho dá.

Os mais radicais ainda falam em “país subdesenvolvido” e não “emergente” em memória de um tempo bom que não volta mais. Afinal, o FMI zela pela estabilidade do sistema monetário global e não só dessa gente boa que vive na base e no credo de que “devo e não nego, pagarei amanhã se puder”.

Outra crítica que se faz ao FMI é o fato de que ele sempre apoiou, indiferente e altaneiro, as ditaduras militares das corporações. O FMI, pelo seu nome e reputação, fala e entende de dinheiro. Só. Sim, não é pouco, mas ele poderia dar uma colher de chá e, quando deixar um hotel de 3 a 5 estrelas, seja onde for, deixar uns trocados ou na mesa do quarto ou na recepção com o gerente para distribuir entre o pessoal afim de que “tomem uma cervejinha”.

Esse aspecto das taxas de câmbio e das balanças de pagamento nunca foi abordado ou discutido nas eternas reuniões em que “efemistas” graúdos vivem bolando para se divertirem um pouco e não ficar só com cifrões atormentando suas gostosas sonecas tiradas, em Lausanne ou Roma, de tardinha depois de um bom almoço no melhor restaurante local que pegou estrelinha no Guia Michelin.

E foi aí que Dominique Strauss-Kahan, com seu primeiro nome de freirinha de canção popular (“Dominique, ique, ique..” lembram?) e sobrenome hifenado, entrou em baixa em seu portfólio de ações e sua taxa pessoal de câmbio. Conforme o jornal que você, ilustre passageiro, tem por costume ler no transporte que o levará para dar duro de 9 às 5, os acontecimentos que levaram o ilustre DSK (essa gente tem mania de sigla. É que deve ser mais barato), francês de nascimento, economista, claro (pensando bem, não é tão claro assim) e político praticante pelo Partido Socialista francês (PS), tendo a seu crédito, ou descrédito, dependendo do ponto de vista, o fato de ser um dos responsáveis pela criação da riquíssima boca do euro.

DSK tinha todas as credenciais e apoio da esquerda para ser o principal rival de Sarkozy, nas eleições presidenciais de 2012. Agora, "babau", a se acreditar na imprensa americana e não há motivo para nela não se acreditar. Aí está Osama Bin Laden com funeral de marinheiro que não a deixa mentir. Muito, ao menos.

São várias as versões para o evento que levou DSK, preso sem fiança, para a notória ilha de Rikers, aonde irá aguardar seu julgamento. A versão mais popular, e que corre pela internet, é que a arrumadeira veio cumprir suas funções na crença de que o quarto estava vazio. De repente, salta nu em pelo do banheiro, dando os gritos de guerra “Tcham! Tcham!”, o renomado DSK, com o seringão ao pronto para dar uma boa injeção de recursos ma moça, ou, como diria um ministro das finanças de um país em desenvolvimento, um “amorzinho legal”.

Ou mesmo ilegal. A arrumadeira (ou camareira, conforme o site ou jornal) levou um susto e viu-se obrigada a fazer tudo que o moço mandava. Pobre é assim: topam qualquer capricho de rico. O nome da criatura vítima do atentado não foi divulgado. Pouco provável, no entanto, tratar-se de emigrante de país hispânico. Hotel de 5 estrelas em Nova York exige documentação provando origem de terras emergidas, que não é o caso de Peru, Costa Rica ou Equador.

A moça foi e deu queixa. Direto na polícia. Duvide-o-dó que, da recepção do hotel de 5 estrelas, viesse outra ordem que não a prisão da moça por injúria, calúnia e difamação.

Agora, da França, surge uma escritora (ah, como a França tem escritoras!) dizendo que DSK “dessecou-a” também há tempos. O processo iniciado com um senhor saindo do banheiro e dando “Tcham!” refletiu mal nos mercados de ações do mundo inteiro. Baixou tudo. Estranhos são os caminhos e macetes da economia.

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