Botei 'feminino' no Twitter, fazendo olhos e boquinhas e rebolando e acariciando meus peitos caídos

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Uma pequena voz interior, assim como a de um imitador do bom João Gilberto, bem que me dizia, “Cuidado, moreno, não vai nessa! Você está muito velho para isso!”.

Fiz ouvidos de um mercador persa de conto de Malba Tahan ou alegoria de Paulo Coelho.

Os meus seguidores neste pedaço de BBC Brasil que me é gentilmente cedido três vezes por semana saberão que estou me referindo aos garranchos que, neste espaço, arrisquei na última sexta-feira, dia 9, falando – pior, gabando-me – de mesmo na idade avançada em que me encontro ter deixado de lado preconceitos lúdicos e, finalmente, após anos de troças e deboches, ter aderido de corpo e alma às redes sociais, a saber, Facebook e Twitter.

Eu deveria, para emplacar um lugar-comum velhusco como eu, ter me recolhido à minha insignificância. Burro velho não aprende.

Ou, como dizem aqui meus vizinhos britânicos, you can't teach an old dog new tricks (atenção para duas linhas de Aprenda Inglês com a BBC, ou seja, “você não consegue ensinar truques novos a cães velhos”).

Não dá mesmo.

No início do mês, tentei beber da água pura e rejuvenescedora da informática, ou cibernética, sinonimizem como quiserem ou souberem (que eu nada sei), e lembrem os que tomaram conhecimento ou saibam os que o desconhecem, que eu preenchi a devida papelada inexistente, ou virtual para “parecer estar por dentro” e online (viram? não estou tão por fora assim) e ingressei para as hostes onde uma porção esmagadora da humanidade segue aos uivos de Lady Gaga e Justin Bieber ou blogueia com a desenvoltura daqueles cronistas brasileiros, que já os tivemos às pampas e de grande qualidade, e que hoje nada mais são do que matéria para uma pouca provável reedição em formato de livro eletrônico.

Somos todos uns Rubens Bragas, uns Fernandos Sabinos, uns Paulos Mendes Campos e muitos, mas muitos et ceteras mesmo.

Volto a mim mesmo de cabeça baixa e rabo imaginário entre as pernas. Sim, eu, como Dalva de Oliveira (“Olha o veio dando vexame! Olha o veio babão citando passadismos!”), errei, sim, só que manchando meu próprio nome.

Resumo, que ainda o sei fazer: dei com os burros n´água ao preencher os simples quesitos de ambas as popularíssimas redes sociais.

Misturei alhos com bugalhos, não houve tolice superada de nosso léxico em que eu não tenha fracassado como aquele velho cão de que falei linhas acima.

Até no sexo, nunca meu forte, errei. Botei “feminino” no Twitter, fazendo olhos e boquinhas e rebolando e acariciando meus peitos caídos.

No Facebook, perdi-me como o cego Aderaldo de nossa literatura de cordel (até quando minhas lembranças ultrapassadas?) e sapequei zona postal e endereço eletrônico errados.

Ambas as organizações sociais me avisaram, delicadamente, dando-me todas as deixas de forma civilizada e cristã de como aderir corretamente às suas sociais empreitadas.

Não houve jeito.

Com os pés inchados, que já os sinto escavocando o terreno a meu redor em busca da cova, desisti daquilo que eu deveria ter logo reconhecido como tarde, tarde demais.

Fico a batucar minhas mágoas no computador e, olhe lá!, já é para sentir-me em dia com os tempos.

De qualquer forma, agradeço ao Facebook e ao Twitter a elegância com que deixaram que eu mesmo, sem ajuda de ninguém, quebrasse minha cara oberta de rugas.

Durou pouco, não deu em nada, mas foi um prazer. Tive algumas horas, dias mesmo, de palpitante expectativa.

Fico por minhas paisagens pastando o que houver no caminho como o dinossauro digital que sou.

Telefonarei para os cinemas para saber o horário das sessões. Comprarei discos nas poucas lojas que sobraram e não na Amazon. Gravarei meus programas de TV prediletos em vídeocassetes. Enviarei telegramas ou cartas escritas à mão aos amigos que sobraram. Terei sempre uns trocados no bolso para a cabine telefônica da esquina. Darei um jeito no fax que adormece no fundo do armário. Consultarei as páginas amarelas. Pagarei minhas contas, sempre com cheque, no banco ou nos correios. Consultarei mais a enciclopédia que encima minha estante de livros poeirentos.

E, com a bravura tola que ainda me resta, combaterei em nome e honra de Gutenberg.

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