Ivan Lessa: Crimes novos na praça

Tribunal na Inglaterra julga muçulmanos acusados de incitar "crimes de ódio"

BBC Brasil |

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O nome da cidade é Derby. Pronuncia-se "Dárbi". Fica nos East Midlands da Inglaterra. Que eu não sei, além de pronunciar, traduzir. Wikipedizando-me, dei lá com um site que me sugeriu "Noroeste da Inglaterra".

Encarei bem o mapinha em que situavam a região em pauta. Não tinha cara nem de Noro nem de Este e muito menos de Inglaterra. De longe, sem óculos, lembrava vagamente o sul de Sumatra.

Não vem ao caso. O que importa é o que lá se passa. Está passando por uma fase de testes, como se fosse modelo novo de carro Fórmula 1, um novo tipo de crime.

Como a humanidade já não tem mais crimes a inventar, ou praticar, xeretei para ver de que se tratava. São "hate crimes", ou crimes de ódio, traduzindo como se eu acabasse de chegar do sul de Sumatra.

Não é tão inusitado quanto a manchete do jornal sugeria. O "crime de ódio" pode ser racial ou homofóbico. A transgressão está em fase de teste para ver se pega ou não.

Trata-se do primeiro processo contra indivíduos que andaram distribuindo, em mão, pelas ruas, ou enviando pelo correio, material que incite aos ódios citados.

É o primeiro caso a chegar aos tribunais desde sua instituição em março de 2010. Como em tanta coisa no país, eu acreditava já ser crime e passível de prisão. Cada vez mais, acredito-me oriundo da Sumatra.

O que está havendo em Derby é o seguinte: Ihjaz Ali, de 42 anos, Mehboob Hussain, 45, Umar Javed, 38, Razwan Javed, 27 e Kabir Ahmed, 28, foram acusados e estão sendo devidamente processados por distribuírem na rua, e atocharem em caixas de correio, folhetos onde se defende a pena de morte para aqueles que praticam – e ruborizo de leve – "o amor que não ousa dizer seu nome", embora haja muita gente boa aos berros por aí dizendo ou praticando o raio do "inominável".

Em Derby, o júri já ouviu como os cinco, em julho de 2010, espalharam folhetos diversos sobre a espinhosa questão, embora o mais em causa seja "A Pena de Morte?", distribuído bem do lado de fora da mesquita de Jamia e suas cercanias.

Ilustrava a peça em questão um corpo de manequim dependurado da corda de uma forca.

Invoquei-me com o "manequim". Por que os cinco do "crime novo" não foram direto para alguém de carne e osso? Que história é essa de manequim? Acharam que seria "menos crime"? Um bom advogado de defesa tem aí um dado para levantar uma ponta de dúvida no corpo de jurados.

Um outro folheto, este levando por nome "Dead Derby" (Derby Morta), foi encontrado entre as posses dos cinco. Só não consta do processo por não chegar a ser distribuído. Nele, o homossexualismo é tachado de "vil, horrendo, uma doença cancerosa".

E brandia o que poderia ser considerado um slogan, ou, na mentalidade dos senhores acusados, grito de guerra: "Gay hoje, pedófilo amanhã". Uma lógica estranha.

Outros slogans foram achados entre os pertences dos acusados: "Continue gay que você pagará" ("Stay gay and you will pay") e, esse nem precisa de tradução, "Adam and Eve, not Steve".

Difícil entender o raciocínio dos "Cinco de Derby", nenhum dos quais nega o crime, mas sim a sua execução em termos reais. Ou seja, pura retórica islâmica, segundo um deles.

O caso prossegue e deverá ser decidido por sete homens e cinco mulheres.

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