Ivan Lessa: Contração nupciosa

Casamento real se torna fenômeno da natureza e inspira telefilme "cômico"

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O tempo acaba ensinando mesmo os burraldos feito eu: se uma coisa é inevitável o melhor a fazer é ir com a onda. Se possível numa prancha de surfe vistosa e fazendo firulas.

Eu pretendia ignorar as reais núpcias de sexta-feira. Talvez dar uma espiada na televisão por uns dois ou três minutos para ver se acontecia alguma coisa estapafúrdia e que desse cem milhões de hits no YouTube. Algo que um turista armado de celular com câmera (todos têm, quero crer) tivesse registrado para gáudio de um mundo onde os eventos na Líbia e na Síria são normalmente o feijão-com-arroz dos noticiários.

Eu escrevi “gáudio” pensando nessas tristezas todas. O que eu gostaria de encontrar num clipe no YouTube, para dar um exemplo, é o Arcebispo da Cantuária emitindo flatos pestilentos, a noiva tropeçando devido aos dois gatinhos que se engalfinharam no trem de seu vestido, o príncipe levando uma torta na cara, essas coisas que deixam para trás, de longe, Tunísia, Iêmen e Bahrein, mesmo em dia que dá praia, para voltar ao surfe que peguei na primeira linha deste parágrafo.

Impossível ignorar o evento. Passou a ser um fenômeno da natureza, feito terremoto seguido de tsunami. Ao menos, não deixará vítimas. Espero. Mas com 18 mil jornalistas em Londres registrando o faustoso acontecimento, acho difícil.

O enlace terá a cobertura televisiva da BBC, das 8 da manhã às 4 da tarde, e da ITV, o canal comercial, das 8 e meia às 4 e 5. Só que pela BBC uma coisa é garantida: não haverá intervalos para comerciais. E quem tiver ido jogar golfe poderá ver uma versão compacta de uma hora e meia às 8 e meia da noite. O canal comercial continuará com sua programação normal à noite. Com duas telenovelas para rebater. Bem razoáveis, diga-se de passagem.

E por falar em passar, passei, desde o Domingo de Páscoa a não perder programa sobre o casal de noivos. Bendito o coelhão que me deixou, num baita ovo, de clara e gema mesmo, sem nem tentar esconder, o filme "William & Kate", uma produção americana para a televisão que, logo no início, avisa que foi “inspirado em eventos reais”.

Uma lástima. Refestelei-me, pois eu sou do time que ainda pratica esse nobre exercício, na poltrona da sala e, após o "rack of lamb" do almoço, às 3 e 55 da tarde, preparei-me para rir, rir, rir. O mundo é mau. Os americanos não partiram nem para o "camp" nem para o "kitsch".

Limitaram-se a passar a 2000 km de qualquer possibilidade de controvérsia e mostrar apenas um namorico entre dois tolos que acaba quando o rapaz que faz o papel do príncipe William, um neo-zelandês chamado Nico Evers-Swindell (guardem esse nome, segurem esse hífen) pede em casamento a mocinha, atriz idêntica a 100 mil outras mocinhas aspirando ao estrelato, mas, ao menos, com sobrenome inspirando à condição de real noiva: Camilla (epa!) Luddington.

De engraçado mesmo, o único real familiar a bater ponto no telefilme, Ben Cross, no papel do Príncipe Charles – ficou igualzinho ao Oscarito em "Aí Vem o Barão", inclusive dizendo em inglês um texto semelhante ao que nosso falecido cômico dizia no mesmo filme.

Eu esperava, no mínimo, algo feito "A Rainha", aquele que deu à querida Helen Mirren um Oscar por melhor interpretação feminina. Esse, sim, é que é dos meus e continua a ser prato excepcional de conhecedores britânicos, ou não, de cinema de qualidade mais do que dúbia. Está lá em cima junto com a filmografia de Ed Wood (aquele do "Plano 9 do Espaço Sideral", ou, no original, "Plan 9 From Outer Space") e "Mata Rápido, Gatinha, Mata, Mata!" ("Faster Pussycat! Kill! Kill!", também original e –íssimo, do Russ Meyer).

"A Rainha" virou moda por aqui, desde que levaram na TV. Festas regadas a vinho branco tépido e a exibição do DVD para os convivas que, do começo ao fim, se desmunhecam às gargalhadas. Sim, abramos o jogo: é um filme tão ruim que o gosto sapeca dos gays mais debochados é o responsável pela descoberta do ridículo na empreitada maliciosamente realizada como se coisa séria.

Tony e Cherie Blair são vaiados cada vez que aparecem. Palmas para o discurso de La Mirren, quando ele finalmente vem. O pobre do James Cromwell trasvestido de Duque de Edimburgo mal contendo seu desconforto. Oscarito se roeria de inveja.

Mas eu me desviei completamente do assunto. Surfei numa onda que me pegou desprevenido. O casamento de sexta-feira e minha obsessão por ele que acabou se tornando mórbida. Um deslize freudiano, com toda certeza, me fez acabar caindo da prancha.

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