Ivan Lessa: Como vão as coisas aqui

De quer forma seria o escândalo dos tabloides britânicos se ele ocorresse na mídia brasileira?

BBC Brasil |

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Minha natural desconfiança da mídia impressa e informatizada já não era lá essas coisas. Coisas que o tempo, que leva tanta coisa, traz como quem dá uma esmolinha.

Minhas décadas de Grã-Bretanha me ensinaram a respeitar os modos, certas tradições, teatro e polícia.

Os jornais, que não tabloides, mesmo à contra-mão de minhas preferências pessoais, eram bem escritos (e muitos continuam a ser) e dava para se confiar em quase 40% do que publicavam. Uma excelente média para qualquer país.

Quanto à polícia, desde os anos 60, eu admirava aqueles dois guardas que cumprimentávamos quando faziam, serenos e monotonamente, a ronda dos quarteirões vizinhos à minha casa cujo território lhes cabia vigiar.

Lembravam-me velhos filmes e a época curta em que duraram nossos Cosme e Damião, como o chamávamos, policiando a dois as ruas pacatas do Leblon, para ficar num bairro só.

Quando penso que não andavam armados os policiais ingleses tenho que me beliscar (e não é no sentido figurado; eu acho bom uma dorzinha ocasional) para me certificar de que tudo não foi um sonho.
Agora, aí está o que aí está.

Lá se foi a Scotland Yard, não é mesmo Jean-Charles de Menezes? Não se dá mais para confiar em jornalismo, polícia, político (com esses eu comecei meu processo de desilusão, para não dizer asco, assim que acabei de ler minha primeira cartilha).

Ator, essa raça tão vilipendiada, alvo predileto dos tabloides sensacionalistas, acostumados a conviver com textos bons e medíocres, além de grampos e paparazzi, eu nunca levei muito a sério. Que decorassem seus papéis, seguissem as instruções do diretor, de teatro ou cinema, e depois sorrissem para as objetivas.

No entanto, no meio desse pau todo que vem rolando, e assim continuará por algum tempo, antes mesmo do The Guardian botar sua boquinha em formato de coração no trombone, foi um ator que deu o primeiro lance nesta verdadeira “batalha” que agora transcorre de maneira maçante (aí, esta rasgação de seda na terça-feira na badalada comissão de inquérito parlamentar, essas excessivas boas maneiras... Ou será paúra pura e simples? Um único momento interessante: o cara com um pastelão pronto para a cara senil do velho Murdoch. Segurança policial é isso aí. Tem mais, as ações do império do homem subiram de cotação na terça. Hem?).

Mas eu dizia, foi Hugh Grant (vou repetir: Hugh Grant) que escreveu um artigo lúcido e objetivo para o semanário de esquerda The New Statesman, que já conheceu dias melhores.

Grant não personalizava. Depois de ser ferrado por um ex-executivo do News of the World, levou um papo com o bruto, gravou na moita e foi revelação após revelação. Está na internet. Hugh Grant limitou-se a fazer as perguntas certas no que dizia respeito aos excessos reinantes e à convivência nefasta de políticos e policiais com o haras impresso de Rupert Murdoch.

Agora, aí está o berreiro atingindo decibéis inimagináveis há dois meses.

Governo e oposição saindo-se igualmente mal, mas principalmente o governo, já que todo mundo tem culpa no cartório. Já houve uma morte de ex-jornalista do NoW, ainda por investigar. Altas autoridades policiais se demitiram. Corrupção é a palavra de desordem.

Tento me consolar, num patriotismo indevido, sabendo que há parlamentares e lordes do reino cumprindo pena de prisão por terem mentido ao relacionarem suas despesas pessoais pagas pelo contribuinte.

Na minha terra natal, como forma de consolo barato, isso aconteceria? Pergunta retórica que faço todo dia ao passar os olhos em nossos – são 3 ou 4, pois não? – jornalões. Noto que a impunidade, o esquecimento, o deixa-pra-lá são não só a tônica, como também o gim, o gelo e a rodelinha de limão servidos para os distintos fregueses que se dizem alfabetizados.

A única coisa interessante que li e continuo a ler na mídia eletrônica brasileira é a questão desses bueiros que explodem na Zona Sul do Rio matando, ferindo e assustando a sempre impressionável e vulnerável populaçao carioca.

Não me informaram se os bueiros de outras cidades comportam-se na tradição habitual paradona e quieta dos bons bueiros. Mas sou informado que a companhia responsável por esses desastres todos chama-se – ô que delícia! – Light.

Reformas ortográficas, nacionalizações, bolsas disso e daquilo outro, orgulhos indevidos, coisa e tal, e não conseguiram se sair com um nome mais tupiniquim do que Light.

Vivo cantarolando mentalmente o breque em homenagem à briosa corporação, então canadense, da esplêndida composição do magnífico Lamartine Babo, "Canção para Inglês Ver", que, a uma certa altura, diz assim, conforme versão de Joel e Gaúcho: "Light and Power Companhia Limitada". Consta que ao menos o "Power" foi para os tinflas. Já é algo.

Diz-se, por aqui, que jornal só serve para sujar as mãos e embrulhar o "fish and chips" comprado na esquina. Fujo a essa tradição e, se possível, peço um envólucro plástico, que nem precisa ser reciclável.

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