Ivan Lessa: Choques para menores

Autoridades inglesas percorrem escolas falando dos "males" dos distúrbios nas ruas e armas brancas

BBC Brasil |

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Volto, desarmado, aos distúrbios de três semanas atrás para não passar pelas estrepolias que ocorrem em Trípoli e adjacências. Não muammarizarei, que eu não sou Otan, rebelde ou leal defensor do insólito coronel Cabeleira.

Prefiro um garoto de faca ou coquetel molotov na mão saqueando e mandando brasas outras nos policiais.

Os eventos de então deixaram, felizmente, cicatrizes dolorosas e os ingleses surgiram com uma variação para eles quase inédita: voltar a tocar no assunto e procurar soluções.

O normal, por aqui, é uma comissão de inquérito, muito papo, um longo relatório e providência nenhuma. Mas tudo muito bem feitinho e em ordem, redigido em inglês do mais alto gabarito (12 andares).

Tomaram os britânicos uma iniciativa louvável (qual a iniciativa que não o é?) de imediato e pronta para entrar em efeito, sem comissão, sem relatório. No peito e na marra, como se cercando, com o rosto encapuzado, uma turma danada de brava.

Pois não há nada mais enfezado do que um garoto disposto a baixar o pau ou tacar a faca num outro boneco de sua desavença ou até mesmo de sua avença.

É de pequeno que se torce ou o pepino ou o pescoço de um guri armado de faca, o pretexto da exclusão social, o pouco que fazer e a falta de ambições na vida.

Logo, adaptando, graças ao que gostam de chamar de "relação especial", uma medida já adotada nos Estados Unidos, e, mesmo sem saber de seus resultados, autoridades médicas e policiais irão fazer a ronda de colégios nas zonas destituídas naquilo que chamam de "tratamento de choque", não o choque que conhecemos, mas o metafórico, simbólico, todo papo e algumas fotos que eu vou te contar...

Tenho minhas dúvidas quanto a seus resultados. No que diz respeito a tudo, quando em dúvida, tenho dúvidas. É uma saída cômoda e não culpa autoridade ou sociedade por minhas descrenças.

Ao tratamento de choque, pois. O que já começou é o seguinte: no combate à cultura de crime reinante entre gangues de meninos de até 9 anos de idade, altas patentes médicas e policiais vão às salas de aula dos bairros mais perigosos para dar – chamemo-las assim – aulas sobre os horrores ocorridos no mês passado em vários bairros de Londres e cidades da Inglaterra.

Estão pondo em prática os méritos daquilo que apelidaram de "mensagens de morte", não só para a petizada mas para papais e e mamães também. Mostrando os horrores dos crimes à faca, arma infanto-juvenil predileta dos mocinhos.

Mais ou menos o equivalente aos maços de cigarro com fotografias deprimentes dos vários males que o vício ora maldito pode causar. Funcionou? Há – e lá bato ponto – os que duvidam. O que funcionou foi aumentar barbaramente o preço dos cigarros e a proibição de se fumar em lugares fechados e acabou-se. Ou, pelo menos, diminuiu-se a quantidade de cigarrinhos consumidos.

Alguns dados que precedem e resultam na medida algo assustadora: mais de 1 em cada 5 desordeiros contumazes têm menos de 17 anos.

Das 2.108 prisões efetuadas, 452 foram de infanto-juvenis. Nick Mason, coordenador do projeto, explica: "Os médicos falam das consequências da violência por faca e sobre os garotos com cerca de 12 anos esfaqueados já usando bolsas de colostomia ou sobre o significado de explicar para um pai e uma mãe o que é uma 'mensagem de morte'”.

"Nós queremos expor os mitos da violência além de dar uma oportunidade àqueles jovens que formam bandos de arruaceiros a optarem por alternativas positivas a esse tipo de vida."

O esquema foi batizado de "Contra o Crime e a Violência", que não pode ser mais explícito, e já vem sendo adotado, como uma espécie de esquema-piloto, em 55 escolas de 5 bairros londrinos.

Vamos ver se os pepinos estarão adequadamente torcidos neste outono e inverno, estações pouco propícias à prática de infanto-bandalheiras.

Caso contrário a solução é torcer os pescoços dos petizes peraltas. Pode ser medida drástica, mas funciona.

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