Ivan Lessa: Aurora ronca também no Malawi

Tunísia, Argélia, Jordânia, Iêmen, até o Irã, e, após 18 dias, a liberdade no Egito

BBC Brasil |

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Tunísia, Argélia, Jordânia, Iêmen, até o Irã, e, depois de 18 dias, o ribombar da liberdade no Egito. Os vários ruídos emitidos pelo povo egípcio, sem contar os dos camelos, finalmente lograram seus objetivos e, após 30 anos (os outros 30 de militares no poder não contam), livraram-se do jugo da tirania de Hosni Mubarak.

Ficaram agora entregues a um governo militar. Sempre transitórios, pois não? Lembremos que o coronel Nasser não era arquiteto e nem Sadat torneiro-mecânico. Tudo milico de escol. Afinal, agora, dentro da melhor tradição revolucionária militar, o Exército prevaleceu: forçou o tirano oitentão a abandonar o poder, suspendeu a Constituição, deu um chega para lá nos direitos civis e para o bem de todos e felicidade geral da nação (aquela história), os camelos, diante de pirâmides, voltaram a posar mascando enigmáticos para turistas.

Foi por um triz. 24 horas antes do ditador retirar-se para um de seus palácios no charmoso resort de Sharm el-Sheik (que por tantas vezes hospedou nosso querido libertário Tony Blair e muita gente dita boa), seu quase xará americano, o presidente "Mu" Barack Obama anunciou que o mundo via a "História desfraldar-se diante de seus olhos".

Não foi bem assim. Animado, Hosni foi para a televisão e disse que não renunciava a nada e iria esperar as eleições de setembro. Uma fadinha fez com que ele percebesse a precariedade de sua situação. Palavra de ditador volta atrás e ele deixou tudo a cargo do Exército e de um governo tendo à frente Omar Suleiman, também militar e tido – ô gente maldosa! – como um poodle dos americanos.

Afinal, sejamos francos, ninguém quer perder essa boca de US$ 1,3 bilhão de dólares que os EUA doam anualmente à milenar terra das pirâmides para aliar suas hostes contra ameaças anti-Israel.

O fato de que quase 500 pessoas foram mortas durante as semanas de anseio e manifestações democráticas por "órgãos de segurança egípcios" mal chegou a ser mencionado pela imprensa. Ninguém sabe que órgãos são esses e como funcionam. As praças esvaziaram. O Exército contém a situação. "Mu" Obama e senhora virão ao Brasil. Vai tudo bem, muito bem. Devagar e sempre, neste século, alvorecer sucede a alvorecer. Alguns fazendo mais barulho que os outros.

Agora evém a vez do Malawi, discreto país da África Oriental, também conhecido por alcunhas, como se fichado num DOPS qualquer: Malauí, Malavi, Malávi e Maláui. Fiquemos com Malawi. Seu presidente, Bingu wa Mutharika (Wa, na intimidade), sugeriu um projeto de lei que punirá severamente a todos os cidadãos que insistirem em emitir gases em público.

Passarão, pois, os flatulentos a servir uma dura condenação, sejam os traques sonoros ou silenciosos – do "pffft..." ao "braap!". O objetivo da lei, segundo a parte do Executivo e do Legislativo que a apoiam, é destinado a tornar os habitantes do original país africano mais responsáveis e disciplinados graças à criminalização das flatulências humanas.

As reformas no Malawi não param aí. Depois de estudarem a situação egípcia e argelina, seus homens poderosos, de bem e bens, poderão ainda incluir no projeto de lei outras ofensas tidas como bizarras por um Ocidente ignorante.

Passará a ser crime também insultar a modéstia de um membro do chamado sexo frágil. E desafiar outrem para um duelo. Por fim, cadeia para quem fingir ser vidente (sem problema se o malawense – é isso? – for mesmo vidente). "Flatos nunca mais" é a frase de ordem nos cartazes das passeatas organizadas em praças do Malawi.

Um parágrafo cultural: no Malawi, o flato, pestilento ou não, porém sobre a sonora decibelagem, leva o nome de "zarta". Se for discreto, quase mudinho, chamam-no de "fassia". Na Turquia, conforme sabe quem entende dessas coisas, um e outro levam respectivamente os nomes de "murad" e "yousef". Um pouco de cultura nunca é demais.

"Mu" Barack Obama, já mordido por camelo e decifrado por esfinge, ainda não fez previsões ou anunciou verba para conter seja lá o que for no Malawi. Limitou-se a citar, em seu já célebre discurso precoce sobre a suposta queda de Hozni, Gandhi e Martin Luther King.

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