Ivan Lessa: Atocha a tocha!

A tocha olímpica parece desenhada por alunos da 2ª série; logo dos Jogos de Londres é odiado pelos britânicos

BBC Brasil |

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O objetivo de uma Olimpíada, segundo entendo eu, não é vencer mas sim competir. As medalhas e a dinheirama que vem depois com patrocinadores são detalhes de menor importância.

Citius, altius, fortius , que, em latim, quer dizer mais rápido, mais alto, mais forte. É, latim. Nada a ver com grego, que, aprendi, seria o berço da nobre empreitada.

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A tocha olímpica de 2012, em Londres
Daqui a três anos, a Copa do Mundo de Futebol será realizada no Brasil. Curiosamente, já há um sóbrio logotipo circulando. Admira-me, no fato, a sobriedade. Não é bem a nossa. Já o espírito de competir pelo prazer de competir nas licitações...

Mas eu quero falar, nas Olimpíadas de 2012, aqui em Londres, chatice que não sai dos noticiários. Comecemos pelo logo. Que a comissão responsável insiste em dizer que não é um logotipo mas sim uma marca ( brand , segundo eles).

Feito a do Zorro. Feito a cicatriz de Al Capone. Uma bandidagem dessas. Discute-se a “marca”, ou logo, desde o dia de sua divulgação oficial, em 2007, até agora, hoje, ontem. Mais de 75% dos britânicos são contra, detestam, não entendem o que quer dizer, acham ridícula, grotesca.

Claro que há sempre um, para ficar nos já citados Zorro e Al Capone, por trás de qualquer design, logo ou “marca”. O divertido, em sua altivez deprimente, é ver os responsáveis defendendo o produto que, em seus meios, insistem em chamar de “artístico”.

Ao logo, ou “marca”. Trata-se um coquetel de charlatanices único. Uma mistura de quebra-cabeças com hieróglifos infantis. Com ares de suástica (mais adiante).

O emblema, para dar um nome mais correto, vem dividido em 4 partes, mais um rabinho no meio que ninguém sabe o que é ou para que serve. Nos dois primeiros da parte de cima, há um que diz Londres e o seguinte estampa as manjadas argolas olímpicas.

Segundo lorde Sebastian Coe, ex-atleta, cada vez mais homem de negócios, a “marca” é o coração da nobre empreitada. Ela, a “marca”, está dizendo que o “espírito olímpico irá inspirar jovens de todo o mundo” e que é um “convite para que todos participem nos esportes culturais, educacionais e comunitários.”

Custou por volta dos R$ 1,6 milhão e foi bolado pelos especialistas, também chamados de embromadores, Wolff Ollins, que, juntamente com muitos parlamentares, aplicam à “marca” o batido (e vencido e surrado) apodo de de “icônico”, palavrinha que nem medalha de bronze pega mais.

No candomblé, segundo minhas pesquisas esotéricas (mas não “emblemáticas”) a “marca”, o emblema, o logo, chamem de que quiserem, é o que o Preto Véio ou a Mãe de Santo, charuto na boca, desenha no chão com uma varinha e garante para o consulente, mediante boa cachaça e quantia módica, que as duas pernas do desafeto serão quebradas, nhô, sim.

Agora, interessante mesmo foi a divulgação de outra ridicularia há coisa de 10 dias. O design da tocha olímpica que irá percorrer meio mundo, até vir arder sôfrega num dos muitos estádios desportivos de Londres. Parece um cone de sorvete bolado por alunos da 2ª série primária de um colégio nota 2.

Um fato importante aí não foi, nunca é, divulgado. A propalada tocha olímpica nada tem de grega, antiga ou moderna. Pura ignorância. A tocha olímpica, tal como a conhecemos, em forma de cone de sorvete ou picolé de açaí, é bolação dos conhecidos designers Adolf Hitler, Joseph Goebbels e os então (1928) administradores olímpicos, Carl Diem e e Theodor Lewald.

A Alemanha, já que perdera a Primeira Grande Guerra, quando não tiveram lugar os Jogos (pelo menos tal como os conhecemos), estava de castigo e, assim, não pode participar das Olimpíadas de 1916, 1920 e 1924, mas, nos Jogos de Amsterdã, em 1928, foi negociada sua participação, assim como alguns anos mais tarde seriam negociados o Sudeto e a Polônia.

Em 1932, em Los Angeles, os alemães (mas podem me chamar de nazistas) bateram ponto, recorde e abocanharam ouro aos potes. Em 1936, com logotipo decente (eles eram bons dessas coisas), tivemos os Jogos de Berlim, aqueles do Jesse Owens.

Hitler não queria Jogos em 36, Goebbels, vivaldino, teve de convencê-lo da tremenda promoção que representariam. Uma ferrada firme nos judeus e maçons, garantiu. Mais: uma demonstração clara da superioridade da raça ariana. É, aquele papo.

Para encerrar no ponto que interessa: foi nesse contexto que, em 1934, Carl Diem bolou essa história de dar início aos trabalhos com uma chama “sagrada”, bolada pela good people da Krupp e da Zeiss, encimando uma tocha, com olímpicos atletas arianos em louca correria por Europa afora. Agora chama mesmo, Europa afora, viria em 1939.

Ao que conta: os gregos, donos da patente, não tinham tocha alguma para levar aonde quer que fosse, já que tudo na Grécia, onde se realizavam os Jogos, ficava pertinho, os esportes praticados (estamos por volta do ano de 800 a.C) eram 13 e a farra toda levava apenas 5 dias.

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