Ivan Lessa: Área de risco (II)

A vida no hospital britânico continua, à espera de não sabe-se o que

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O cavalheiro da baia 1 insiste em proclamar, várias vezes por dia, que ele é cristão e nascido na Eritréia.

Ninguém lhe perguntou nada.

É uma declaração possível de princípios para os das outras 5 baias. Que não se mostram interessados.

O eritréio fala incessantemente e quase sempre pedindo analgésico. Mas aspirina e não paracetamol. Deve doer nascer na Eritréia e ser confundido com muçulmano.

As outras baias continuam tentando desvendar os hieróglifos no teto que continuam sem Pedra da Roseta e Champollion.

Atrás dos 6 da área de risco, invisível para eles, um monitor com números cabalísticos e linhas coloridas subindo e descendo. A linha reta com apito de encerramento de partida e apagar das luzes ainda não deu sinal de vida. Ou, melhor dizendo, de morte.

Na baia 2, Arnold. Que todos, mesmo pouco ligando, ficaram conhecendo de nome e certas intempéries. Vai mal, Arnold. Embora deva ser homem de posse. Sua mulher o visita e, fiel a seu lado, deixa-o em segundo lugar, a perder feio para o celular variado de madame.

Cinco baias, na falta de qualquer entretenimento, fingem-se ausentes das turras com suas mazelas e devoram, como o cereal e o chazinho servido às 7h da manhã as conversas unilaterais de madame Arnold. Sobre modas, restaurantes, prevaricações de conhecidos e conhecidas. Ela contratou um enfermeiro do hospital – desprovido de celular – para passar a noite sentado ao lado de Arnold.

As baias que não conseguem pregar o olho, 3 e 4, prestaram atenção. Principalmente na hora – 2h, 3h da madrugada? – quando Arnold em pleno delírio, ou pura safadeza, descreveu sua participação em ato sexual. “Assim... isso... agora... deixa... aí... está gostoso para você também?” As duas baias atentas ficaram esperando mais detalhes e saber se há adultério no meio do que nenhum dos dois quer que seja delírio, mas simples lembrança ou desejo.

Não há libido no hospital entre os pacientes. São raros os casos de satiríase ou ninfomania informam as estatísticas essa paixão britânica.

Borrou-se todo o da baia 1. Cortinas azuis fechadas. Entediadas, as nurses limpam o que podem, levam o pijama cor de abacate e um lençol, voltam com roupa nova; pijama abacate, lençol branco.

Após o breakfast (cereal, chá) hora de injeções, compadres, medicamentos. As baias calouras em hospital estranham o aparelho que lhes é colocado no ouvido, dá um ping e acende lá por dentro uma luzinha vermelha. Que medirá? Que intrusão perpetua?

Mais intrigante são aqueles anéis de plástico por fora e rubi reluzente por dentro revelando pelo dedo segredos do sangue, do pulmão e do coração. A ciência médica prossegue e dá poucas ou nenhuma satisfação.

Logo a seguir, o copinho liliputiano com a remediarada devida a cada caso, acompanhado de vasta jarra de água e um copo de tamanho normal. Mais de uma baia com a bandeja ainda com o que sobrou do café da manhã, "compadres" cheios e, em pelo menos 3, um chapéu feito do mesmo material – papelão cinza grosso – onde um ou outro cospe e escarra o tempo todo.

As luzes, e um ou outro berro, o do cristão da Eritréia, por exemplo, reclamam pedindo socorro, ou, no caso, auxílio, limpeza.

A cada intervenção médica, é de se esperar (os anéis, as injeções incessantes precedidas da frase decorada, just a scratch ) das nurses, elas abrem um grosso livro vermelho que cada baia – ainda não dá para merecer a medalha ou faixa de "paciente" – possui à beira da cama e registra os enigmas que, por alto preço, a saúde, pagou-se. Parecem estar dando notas a maus deveres de matemática.

A uma certa hora, meio-dia, um cheiro cobre o teto como uma nuvem invisível. Cheiro de purée de batatas, grânulos para se preparar molho de carne ralo e algo vagamente familiar mas que todas as 6 baias em comum, e sem nada dizer, nem mesmo para si próprias, acreditam reconhecer. A morte, talvez.

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