Ivan Lessa: Área de risco (I)

A espera e a rotina na área de avaliação de riscos de um hospital britânico

BBC Brasil |

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Às vezes, os velhos choram alto e fino como crianças de colo. No hospital é como a regularidade da senhora que passa todo dia, de enfermaria em enfermaria, oferecendo, num carrinho, livros. Que por um motivo ou outro ninguém quer ou pode ler.

Uma ou duas da manhã na "Area of Risk Assessment", a Área de Avaliação de Riscos, aqueles que ainda estão por ser distribuídos para as suas devidas áreas especializadas – coração, pulmões, câncer – ouvem o pranto sofrido e já começam a ter dúvidas sobre se valerá a pena ou não passar para aquele outro patamar sempre e cada vez mais distante, inatingível até: ficar bom.

São 6 baias numeradas. Cada uma pode ser isolada como um cubo formado pelas três cortinas de um plástico azul duro e dobrável da cor do uniforme das enfermeiras.

Uma das 4 cortinas é tomada emprestada da baia contígua. Fechado o pequeno cubículo, nele ocorrem as devidas, ou indevidas, intimidades e medicações.

Ninguém das outras baias está interessado.

Um hospital iguala todo mundo. São todos gente cujo corpo optou por não funcionar lá fora, que fica longe demais e para onde só os muito otimistas e incautos esperam voltar.

Mais de 80% das enfermeiras são caribenhas ou afro-descendentes. Sorridentes e algumas até que bem-humoradas. Difícil entendê-las o tempo todo.

Os médicos, naquele tom com que se fala com surdos ou gente de lenta compreensão, são mais inteligíveis em sua ronda habitual dando suas impressões profissionais para os 6 das 6 baias da área de risco.

À sua maneira, as enfermeiras seguem o exemplo. Azuis esfinges ocupadíssimas. Em seu uniforme azul, voam para cima e para baixo sempre com um ar atarefado, que tudo indica apropriado, e, talvez por isso, levem tanto tempo para atender os seis da área de risco.

Um doente num hospital, ainda por saber em que enfermaria irá parar, é, por definição, um chato incógnito, além do mais mimado.

Imagine querer um “compadre” ou dizer que está com uma dorzinha aqui ou ali. De nenhuma serventia o engenho manual preso a cada leito (nunca cama) para chamar a atenção da nurse.

Alguém, aquele baixinho careca e parrudo da baia 4, quer que fechem a janela e as cortinas pois anoitece e esfria. Fica aguardando a atenção que não vem.

Na baia ao lado, a 5, um senhor galego, com dois filhos sempre a visitá-lo, dá a um deles, o caçula, homão de mais de 40 anos, a ordem de atender à baia 4, que agradece xingando baixinho as chamadas "black and blue angels" como são conhecidas na área de risco em menos de dois dias. "Black and blue" = luxações.

Há um humor triste na área de risco.

O da baia 3 não consegue se cobrir. Lençol e fino cobertor engalfinhados no que se assemelha a uma enredada luta livre de órgão expostos. O outro filho do galego, um homem gentil, também sob a ordem do pai, vem e realiza a delicada operação de separar a briga e cobrir o da baia 3. A luzinha laranja do “chamador de enfermeira” continua brilhando sem enfermeiras que a apague.

De madrugada, ou o que os da área de risco acham que seja madrugada, já que os medicamentos são muitos e a noção de passagem de tempo escassa, foi-se há muito. Faz escuro. Isso é garantido. Nada a ver com problemas oculares. Faz escuro. Pode ser 9 da noite, mas a madrugada e seus perigos (nunca mais as de boemia) perpassam a enfermaria baia por baia.

Madrugada sinônimo de noite. Que é a hora em que as enfermeiras, na entrada da área de risco, perto do balcão com o telefone, põem o papo em dia, contam casos, riem muito, uma ou duas cantarolam e 6 baias em risco ainda não definido tentam dormir. Como pequenos faróis inúteis, duas chamadas laranjas continuam brilhando querendo qualquer coisa – viver, talvez – e iluminando a enfermaria.

De outras enfermarias, uma, duas, três vezes o grito – parece um longo miado também – de algum velhinho. Que os velhos aqui vivem apenas no diminuitivo.

(Continua quarta-feira)

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