Ivan Lessa: Agatha Christie, a Rainha do Surfe

Escritora britânica e o marido conheceram na década de 1920 as delícias do esporte aquático

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Em primeiro lugar, devo explicar que continuo sob os efeitos do contagiante tabloidismo que reina por estas ilhas. O escândalo correu mundo e creio não ser necessário maiores explicações.

Todos sabem: grampos, parlamentares, policiais corruptos, jornalistas desqualificados, tudo isso que já foi digerido com interesse por meio mundo.

Ocupei-me, de passagem apenas, do que talvez seja o principal elemento do tabloidismo, as celebridades, também conhecidas vulgarmente por celebs , aqui e aí. Não fossem elas, a quem iriam os editores do baixo jornalismo grampear? O dono do armazém na esquina? O bancário às vésperas da aposentadoria? A ex-esposa do pedófilo julgado e condenado? Creio que este último caso seja um mau exemplo, uma vez que mereceria, como já mereceu, no caso de muitos tabloides, um bom rastreio.

O que interessa mesmo, admitamos, e isso é meio verdade para nós também, são as celebridades e o que e quem elas andaram fazendo por aí

Nessa condição é que estou aqui, mais uma vez, com uma celebridade enfileirada, prontos ambos para revelar tudo. Porém sem sensacionalismos. Muito pelo contrário. Seu nome? Agatha Christie.

Mais do que biografada, surgiram agora provas irrefutáveis, todas obtidas dentro dos parâmetros do jornalismo com lisura e sem lei alguma violada. Antes no entanto, confesso uma birra de minha parte. Dame Agathá Christie é tida, entre nós, como a “Rainha do Crime”. Nada menos apropriado.

A profícua autora de mais de uma centena de livros policiais (alguns excelentes), e até mesmo de peças teatrais batendo recordes mundiais de permanência em cartaz, pode e deve ser chamada de a “Rainha da Detecção”, que fica mais próximo da verdade. “Rainha do Crime”, eu diria, foi Bonnie, aquela companheira de Clyde, Aileen Wournos (matou 7 motoristas de caminhão), que foi retratada no cinema e deu Oscar para Charlize Heron, nossa “Fera da Penha” e, talvez, forçando um pouco a barra, Maria Bonita, jovem e perigosa companheira de Lampião.

Agora Dame Agatha Christe? Nunquinhas.

Ela traçava com mão segura crimes para Hercule Poirot e a sra. Jane Marple desvendarem, no último capítulo, quando reunia todo mundo numa sala e ia explicando tim-tim por tim-tim o que na verdade acontecera. Repito e nomeio-a, pois, “Rainha da Detecção”. E estamos conversados.

Vamos, pois, a um gossip , como se diz nas altas rodas de nossa sociedade, sobre minha celeb escolhida para dar o pontapé inicial neste agosto, que, dizem, é o mês do desgosto. Uma gossip construtiva e informativa, tal como deveriam ser todas.

Pete Robinson, fundador do Museu do Surfe Britânico, em artigo recheado de dados irrefutáveis, e até mesmo fotos (há uma de Christie com maiô da época ao lado de uma prancha de surfe), prova como Poirot provaria na sala de estar, que Christie e seu marido Archie, arqueólogo, em viagem à Cidade do Cabo, na África do Sul, e em Waikiki, no Havaí, conheceram em 1922 as delícias do surfe.

Primeiro, na África do Sul, em fevereiro, quando foram introduzidos e amaram o surfe deitados numa prancha (nosso velho “jacaré”) na praia de Muizenberg.

Agatha Christie anotou no diário, que como boa inglesa mantinha, a consistência das tábuas e o método adequado para cruzar as ondas, tendo manifestado, de próprio cunho, os prazeres daquilo que ela nem desconfiava, com toda sua argúcia, ainda viria a ser um dos esportes mais populares do mundo, onde houvesse praia e ondas à altura.

O casal Christie, continuando sua excursão, de trabalho (promoção da exibição do Império Britânico de 1924) e prazer, foi ter a Austrália, Nova Zelândia e finalmente Waikiki, no Havaí.

Neste local, onde deveria haver uma estátua dedicada a Dame Agatha Christie e seu marido, Archie, aprenderam a surfar de pé nas pranchas lá existentes em profusão já há alguns anos.

O casal usou botas especiais, para protegê-los dos recifes de coral, e vestimentas de banho mais leves e adequadas para a modalidade recém-descoberta. O maiô, se assim o podemos chamar, de Agatha era verde-esmeralda, conforme, metódica, anotou ela em seu diário.

Este novo aspecto, até agora desconhecido da maioria de seus admiradores, dá-nos um retrato maior e melhor de Agatha Christie, escritora de contos e romances policiais e que foi, insisto em repetir, não a “Rainha do Crime”, mas sim a “Rainha do Surfe”.

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