Ivan Lessa: A valsa de Martin Amis

Amis gosta de criar caso; é uma espécie de Caetano Veloso mais baixinho e repertório menos variado

BBC Brasil |

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Martin Amis é um escritor britânico, com boa parte da vida feita nos Estados Unidos.

O pai dele, Kingsley Amis, também escrevia. Melhor e com mais graça. "Lucky Jim", "Stanley e as Mulheres" são romances debochados com tudo certinho no lugar. Não era pretensioso. Amis pai sabia o que fazia. Fez Martin, nascido em 1949.

Martin Amis gosta de criar caso. Principalmente nas entrevistas para os jornais. É uma espécie de Caetano Veloso mais baixinho e repertório menos variado. Teve seus momentos Odara e Araçá Azul.

De vez em quando, como agorinha mesmo, baixa-lhe um santo novo. Mas sabe o quanto vale uma boa promoção.

Pode não ter um romance ou livro de ensaios (tem um muito bom, sobre literatura americana, sua grande influência, "The Moronic Inferno", ou seja, O Inferno Imbecil) engatilhado, mas uma boa entrevista com foto no jornal sempre é bão e deve-se dizer, "Caixinha, obrigado!".

Como o nosso bom baiano, é prendado o baixinho. Não perde vez de se vender.

Capaz de aqui, onde mora no momento, estar encarando a possibilidade de pintar os cabelos de branco-aloirados ou louros-embranquiçados, para entrar nessa moda do Julian Assange. Já vi na rua uma boa meia-dúzia de Assanges. Tudo deixando vazar vaidade. Informação, que é bom, nada.

Poucos sabem mas no filme do esplêndido Alexander Mackendrick, "Vendaval na Jamaica", baseado no igualmente formidável romance de Richard Hughes, "A High Wind in Jamaica", de 1965, Martin Amis, empurrado, ou talvez empurrando o pai, tem um papel importante: o de um menino sequestrado por piratas, Anthony Quinn e James Coburn, que, com muita arte e insinuação parece estar exercendo seus atrativos sobre os dois corsários. Não fica claro, não é para ficar.

Para mim, é a melhor coisa que Amis Filho já fez, inclusive melhor que seu melhor livro "Money" (Grana, traduzimos nós cafajestes que somos).

Estava um bonequinho, os cabelinhos louros que só o Wikileaks vendo.

Duro é segurar o homem sem livro. De repente, bate um Araçá Azul ou Lilás no camaradinha e ele dispara a dizer besteira.

Como se num palco, a sós, vestido de smoking e coberto por um diáfano manto de vaidade, ele se dedicasse a alguns passos do compasso ternário da valsa. É a valsa que não lhe sai da memória, a valsa animada da auto-promoção. Saudades? De quem?, me pergunto. Quinn ou Coburn? Mackendrick, o Mackie de Embriaguez do Sucesso? Mas lá está ele com seu Danúbio Azul, 3 pra lá, 3 pra cá. Alguém - quem? - invisível como parceiro.

Outro dia lá estava ele com seu quarto de página em jornalão declarando que "só um insulto cerebral o faria escrever para crianças".

Isso está me soando a vendaval e cheirando à Jamaica.

Ele já dissera que o nobelizado escritor sul-africano J.M. Coetzee, autor de "Desgraça", não tinha "o menor talento".

Colega de profissão seu, Martin, devagar com a louça. Sem odaras, tá, sem odaras.

Amis Filho não culpa sua falta de talento para o gênero, coisa que não teria nada demais. Absolutamente. Ele é contra o livro infantil ou juvenil. E todos que os tentam escrever. E logo num gênero em que os britânicos são mestres.

Praticantes da tradicional arte, pois arte é, perguntem a Monteiro Lobato, com Tia Nastácia e tudo, caíram nessa e responderam à altura ou mais alto. Quer dizer, Martin Amis, conseguiu parceiros para sua dança.

Agora, preste atenção, Martin Amis, valsa não é para se rebolar feito uma louca. Fique com seu smoking no meio do placo e os cabelos tingidos à la Assange. Mas chateie menos, por favor.

O homenzinho odarou e já sugeriu em cada esquina um estande de eutanásia. Para acabar - suas palavras - com esses horrendos imigrantes.

Tão tá, Martin. Vai na valsa mesmo e para de encher o saco.

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