Ivan Lessa: A cigana me enganou

Despejo de "travellers", ou ciganos em bom português, tem chamado atenção na Inglaterra

BBC Brasil |

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Venho acompanhando com vivo interesse (meio sem fôlego, mas vivo) o drama da idílica cidade de Crays Hill, no condado de Essex, aqui na Inglaterra.

Parte da região tem o nome de Dale Farm e é da propriedade de seus residentes. Residentes que lá construíram suas casas com as devidas permissões de planejamento e residentes que tiveram seu planejamento recusado.

A primeira dessas partes é classificada como o cinturão verde da região: feito no Brasil, parece que lá em se plantando dá.

O interessante são os residentes com visto de habitação negado: lá se estabeleceram na marra.

São os chamados "travellers", cuja tradução não poderia ser mais simples: viajantes.

Os ingleses gostam de dar nome àquilo ou àqueles que já têm um nome embutido na vida.

"Travellers", no caso, é um eufemismo, creio que vindo na crista da onda de correção política, para ciganos.

Cigano, em inglês, é "gypsy", que, segundo alguns etmologistas, teria sua origem em “egípcio”. Gente, pois, viajada, no tempo e no espaço.

Mas o cigano de verdade é igual em todas as partes e em tudo lembra nossos, principalmente, nossas, ciganas.

De origem romena, pele e cabelos escuros, um lenço na cabeça, pequenas medalhas dele dependurados, saia rodada varrendo a calçada e, nas esquinas, oferecendo por preços extorsivos flor em troca de algus miúdos ou se oferecendo para nos tirar a sorte.

Estilizamos nossas ciganas dado o seu desaparecimento (talvez tenham ido de volta para o Egito ou procurado vida nova na Inglaterra), e elas acabaram fantasias, com suas devidas marchinhas, de Carnaval.

Corria também, entre nós, que os ciganos vinham à noite levar com eles as crianças que não se comportassem direito.

Nisso que dá o nomadismo mal planejado: má reputação. As ciganas também punham cartas e, birra de povo errante, por certo, só vinha novidade desagradável.

Voltemos a Dale Farm. Em 1970, os “viajantes” não obtiveram licença para lá construir. Apesar do “não” oficial, um grupo, que agora consta de cerca de 100 famílias, fincou pé e lá se estabeleceu e ficou.

Em seus trailers. Isso aí: trailers. Vivem, moram, fazem lá o que seja que for que tenham a fazer em trailers.

Isso não é o único fato curioso da história: os “ciganos” no caso têm, em sua maioria, raízes mais do que fixas na Irlanda, numa cidade chamada Rathkeale, no condado de Limerick.

Vejo e ouço-os dando entrevista na televisão a respeito de seu despejo, agora oficial graças aos esforços da população local junto à Comissão de Basildon, que supervisiona essas pendengas por aquelas bandas.

Os “fixos”, para dar o antônimo de “viajante”, moram em casa, com quintal, jardim, trabalham ou não no campo. Os ciganos são, em sua maioria, loiros, baita sotaque irlandês, lenço algum na cabeça.

No momento, estão recorrendo já que o despejo estava marcado para agosto. O assunto rende. Fora da região. Todo mundo tem uma opinião a repeito, já que a vida é dura e é preciso expressar qualquer coisa sobre tudo.

Outro dado que eu desconhecia até esta semana é o de que os "travellers" têm, lá na cidade original deles, na Irlanda, excelentes casinhas, todas fechadas a chave e cadeado e, ainda por cima, cercadas por muros.

São itinerantes por vocação, praga, burrice, sei lá. Coisas de cigano, diríamos nós quando havia baile de carnaval no Glória e no Municipal. No que, saudosistas, voltamos a pular Carnaval. De preferência, e em homenagem aos fatos atuais, "Cigana Feiticeira", com os "Quatro Ases e um Coringa".

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