Ivan Lessa: A Bíblia, deles e nossa

Não há cidadão britânico ou publicação que não deva algo à iniciativa que ganhou o nome do rei Jaime.

Ivan Lessa, BBC Brasil |

selo

Depois desse tempo todo, se me perguntarem o que mais admiro nos britânicos, eu embatucaria. Mas não muito.

Tenho a impressão, ou pouco mais que isso, que prezo o apreço que eles têm ao inglês, falado e escrito. Volta e meia, eu dou um faniquito, neste cubículo em que me encerro, contra o raio da "reforma ortográfica" brasileira.

E tomem aspas e um "raio" só para não perder o hábito. No momento, neste mundo em crise em que temos que viver, há um consolo. A Bíblia Sagrada. E vou logo me confessando: sou ateu. Mas amo a língua, o escrever bem. Qualquer língua. Qualquer coisa bem escrita.

O consolo que a Bíblia em inglês oferece não está se manifestando nem nas ruas nem nas reuniões com entidades políticas e bancárias internacionais. É consolo derivado de outra saudável mania britânica e que se estende, na medida do possível, a todos os povos de língua inglesa, valendo americanos e australianos.

E quando se fala em Bíblia por aqui, está se falando da chamada Versão Autorizada. Por extenso, a versão do rei Jaime.

E aí já vou abrindo o primeiro parágrafo para indagar: por que é que até um certo monarca, nós o chamamos pelo nome próprio traduzido? Henrique, Ricardo, Eduardo. De repente, por um desses mistérios - alguma reforma que desconheço? - virou tudo ao original inglês, sem dublagem, digamos. Henry, Richard, Charles e - chi lo sá? - William e não Guilherme.

Googlarei até chegar a alguma conclusão.

E volto ao meu lugar na abadia pomposa ou igrejinha simpática e modesta onde eu folheava a KingJames Authorised Version of the Bible, para dar seu nome completo e correto. Comemorações. Datas assinaladas. Memória preservada.

Outras das qualidades que eu acrescentaria à minha lista. Sempre depois das belezas ocultas e óbvias do idioma do Bardo Imortal, como gosto de o chamar, por passadismo e ser passadão.

Vejam vocês, já é matéria de editorial de jornal, logo abaixo da mais recente passeata de justo protesto estudantil, o aniversário de sua publicação em 1611 - 2 de maio, para ser preciso, começa a ser comemorado. Quer dizer, seis semanas ou mais de 5 meses antes do quarto centenário do lançamento.

Prematuridade britânica? Não creio. Festinhas para o instrumento - e livro, principalmente a Bíblia, é instrumento - que ajudou a lançar as bases da língua hoje falada aqui e no mundo inteiro. Já houve festa com a presença do duque de Edimburgo (sim, eles trabalham, gente), e na quinta-feira passada, na cidade de Preston, teve início uma leitura constante e total - espécie de "bibliotona", se o neologismo não for heresia - da versão em pauta.

Até mesmo ateus confirmados, defensores da "inveracidade" total da Bíblia, como o agora popular em mais de um continente Richard Dawkins, participam alegremente das festividades.

Pois festividade é ganhar assim e assim ter para a vida inteira o trabalhão iniciado em 1604 e terminado em 1611 pela Igreja Anglicana. Na verdade, tratava-se da terceira versão em inglês do volume, mas tão cativante era e é essa versão que virou, não sem motivo, autorizada e até hoje adotada.

Para termos uma ideia, em quatro séculos foram, no mínimo, 2,5 bilhões de exemplares postos em circulação, preservando e honrando a língua inglesa. Mais até talvez do que Paulo Coelho e Chico Buarque de Holanda juntos.

A Versão Autorizada a quem louvo, e quase, quase me ajoelho diante, contribuiu com nada mais nada menos que 257 frases até hoje em uso. Parece até que há um jabuti lá disputando um prêmio e uma discussão em torno de leite derramado.

Não há cidadão britânico ou publicação que não deva algo à iniciativa que ganhou o nome do rei Jaime. Em português, do Brasil e de Portugal, a versão tida como um marco equivalente é de João Ferreira de Almeida, a primeira tradução do Novo Testamento a partir das línguas originais.

Era protestante, o Ferreira de Almeida, que levou dez anos revisando sua versão, só publicada após sua morte em 1693. Estudiosos encontraram, dizem lá eles, nunca conferi, 1.119 erros de tradução. Com a "reforma ortográfica" como é que ficam as coisas, pergunto, a cabeça baixa e coberta de cinzas?

Inclusive, e principalmente, a versão (estão lá em casa os sete volumes de 1821; aceito ofertas) do padre católico português António Pereira de Figueiredo, baseada na Vulgata e que levou 18 anos para ser completada.

Fato e facto tornado possível devido ao fim dos trabalhos formais da Inquisição (vade retro). As comemorações vêm aí? Já vieram e passaram? Com que "acordo ortográfico" devo me informar?

    Leia tudo sobre: Ivan Lessa

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG