Em defesa da toronja

O fruto em questão, originário da região de Barbados, sempre foi cognominado de "fruto proibido"

Ivan Lessa, BBC Brasil |

Em primeiro lugar, já que estamos em plena e controvertida apologia, eu gostaria de defender algo com um nome definido. Rupert Murdoch é Rupert Murdoch e, se um dia ele acabar no banco dos réus, com tal nome será absolvido ou condenado.

Não vi, até agora, ninguém chamá-lo de J.F. Spalding ou Anne Marie Foster.

Mil coisas correm a respeito do ex-antípoda, menos algum disparate a respeito de seu nome.

Visto isso, afastado o perigo de mais um escândalo jornalístico, volto à minha defesa.

Remexo na arca gorda e empenada de meu passado e constato como fato indubitável que, para mim, quando tive de enfrentar a cítrica fruta, em geral no café da manhã (não chamavávamos ainda de breakfast), nós a chamávamos de grapefruit mesmo, à americana ou inglesa, evitando assim o espectro de letras itálicas naquele azedume para mim detestável, mas durante alguns anos obrigatório. Tanto que acabei pegando gosto.

Corria a lenda de que era rica em vitamina C, e, na época, tudo com vitamina C era indispensável para a alimentação diária.

Lembro-me inclusive de que havia um aparelhinho especialmente importado que servia para separar os gomos amarelos, vermelhos ou alaranjados do ácido fruto. Em geral, pulava sempre uma gota no olho esquerdo. Nunca no direito, sei lá porquê. Sempre o esquerdo.

Uma vez inaugurada minha independência de cuidar de minha saúde, lá pelos16 anos, pude dedicar-me de corpo e alma ao que realmente me interessava: cigarros, picolés e churrasquinhos de cotia nas proximidades da Central do Brasil, na volta de mais uma derrota do Botafogo no Maracanã.

Desviei-me da questão em pauta, uma vez que as pautas são pobres de espírito, pouco imaginativas e, além do mais, dão azar.

Ao grapefruit então. E como acabei fã dessa fruta amarga entre tantas que me couberam na vida. Vou aos alfarrábios antes, para mais dela saber, melhor saudades ter. Lá encontro tudo que eu não tinha a menor vontade de saber e que passo adiante por birra de fim-de-semana de verão enquanto espero as primeiras tacadas do Open britânico de golfe.

O meu aborrecido grapefruit tem mais alcunhas do que bandido do morro do Alemão ou da Rocinha.

Além de toronja, que eu já conhecia, pode ser toranja, turanja, pomelo, pamplemussa (o que me leva a uma Paris de 1956 e a uma namoradinha da Provence - Marie-France, claro - e o suquinho de pamplemousse, que tomávamos no pétit dejeuner do bar-tabac da esquina da rue Cujas.

Descubro, além do mais, que a fruta em questão também pode se chamar Jamboa, que, na verdade, deveria ser bairro pobre no Rio ou lateral direito do Olaria.

Recuso-me a ter tido no prato à minha frente, numa manhã qualquer pré-adolescente, em São Paulo, Rio ou Paris, uma “jamboa”, mesmo que, e procuro enganar as papilas gustativas da memória, dulcérrima.

Pois bem, o grapefruit, sem letras itálicas, já que estou em terras britânicas e respeito os costumes locais, anda em plena decadência, teve seu auge (a tal história da vitamina C funcionava aqui também) e agora, em 2010, viu suas vendas caírem em assustadores, para eles, 3,6%.

O fruto em questão (driblei de novo o nome do cítrico; sou um Garrincha solto pela asa direita), originário da região de Barbados, no Caribe, e criado, ou adotado, no século 18, sempre foi cognominado de “fruto proibido”, possívelmente devido à sua tendência de esguichar no olho esquerdo das pessoas, tendo sido adotado e chegado próximo à adoração nos Estados Unidos, onde não fazem nada por menos, inclusive o zero à esquerda.

Não sei como andam as coisas lá. Creio que por baixo, já que Obama, dizem, dá azar (toque, toque, toque, pé de pato etc).

Surge agora, com certeza resultado de alguma pesquisa encomendada pela indústria toronjal ou toranjal, uma pesquisa, que vai logo admitindo não ser nem 3,6% científica apesar de declarar que, ao longo de uma experiência com duas semanas de duração, entre 65 mulheres de boa cepa e que não se intimidaram ante a perspectiva de atacar, com esguicho no olho e tudo, uma toronja (fiquei com essa no prato olhando para mim e eu para ela) por dia, 81,6% notaram uma distinta melhora na textura da pele, 72,3% descobriram seus cabelos mais sedosos e macios e 58,5 perderam alguns quilinhos extras. Todas declararam um nível maior de energia e concentração.

Ora, para pesquisa que não se diz científica, esses números são muito precisos demais, recheados de percentagem e virgulação. Parece conversa de pai e mãe (“Come que é bom para você, menino”) insistindo para o filhote dar cabo da – e digo quase como xingamento – jamboa.

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