Ivan Lessa: Você tuba?

Terceiro site mais visitado da internet, o YouTube ganha 72 novas horas de conteúdo a cada minuto

BBC Brasil |

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Parece aquelas bobagens de garoto. Um virava para o outro e perguntava pelo Loxas, pelo Lunda, pelo Sunda ou ainda o Mário e o resto de uma turma malandra. Os desavisados e mais jovens caíam e ficavam à espreita para ir à forra numa vítima tão inocente quanto há pouco ainda o eram.

Por nostalgia, VocêTuba é o apelido carinhoso com que batizei um dos sítios (nunca uso site) que mais curto na Net.

No que não estou sozinho. Leio nas folhas que o meu prazeroso amigo informático é "big biz" e o terceiro website (esse eu uso) mais visitado nos computadores e seus derivados (a coisa se espalhou) depois do Google e do Facebook.

Este último não conta com minha simpatia ou presença. Lembra-me, em nível mais baixo e sem charme, aqueles cadernos que as mocinhas no colégio mantinham e passavam adiante entre colegas e amizades com perguntas, sempre na segunda pessoa do singular, tais como "Onde pretendes passar a lua de mel?", "Quais os teus astros de cinema prediletos?" e, sempre na última página, "E por fim o que achas da dona deste caderno?".

Era simpático, singelo e não tinha ações na bolsa. Mal bolsa tinha, na verdade.

Quanto ao Google, pelo que entendo, é dono ou parceiro do VocêTuba, e não há dia que eu não o consulte.

Gosto inclusive do verbo que deu em português, googlar. Estou sempre googlando alguma coisa. Perfil de escritor, origem de expressões, mapas, o que der e vier.

Só sei que nada sei e que o Google 9 vezes em 10 me responde bonitinho e certo, ao contrário de conhecidos e sumidades que gostavam de me humilhar com sua sapiência.

Falar mesmo, hoje, eu quero é de como me faz companhia, entre outras coisas, o VocêTuba.

Vamos esclarecer um ponto importante. A pessoa pode tubar no passivo ou no ativo. Isso não tem nada de mais nos dias de hoje. No passivo é quem, feito eu, sai procurando clipezinho de filmes antigos e queridos, em geral musicais, embora valem também certos noirs ou outra bobagem que for e que pertence apenas ao nosso patrimônio histórico pessoal.

Só noutro dia mesmo encontrei coisas das mais sérias no VocêTuba. Conferências e depoimentos, entrevistas ou registros de gente e coisas do mais alto gabarito. Lá fui dar com Camus, Noam Chomsky, Louis-Ferdinand Céline, Hemingway e outros heróis culturais que eu juraria não fazerem parte do mesmo sítio – esse Picapau Amarelo das Arábias – onde vou dar com esse ou aquele cantor em tal filme, chanchadas antigas, trailers de seriados (A Deusa de Joba), às vezes (está dando muito) filmes completos, em partes ou não, para não falar daqueles que ativamente colocam cenas de família, filmezinhos dos pimpolhos, gato tocando piano e outras coisas a que não chamarei de bobagem.

Bobo sou eu que descobri não ter talento nem hora mais para escrever "Em Busca do Tempo Perdido" (agora tem conferência sobre Proust à beça) e fico agora levando pequenos empurrões na memória e fazendo rol de favoritos que estou sempre revendo.

Sou um "tubador" passivo e se houver desfile no centro da cidade daqueles que se orgulham da condição e eu conseguir o fôlego necessário compareço muito pimpão da vida erguendo faixa ou portando cartaz.

Fiquei sabendo esta semana mesmo que, a cada minuto, 72 horas de filmões, filmezinhos ou filmecos são tubados. É muita tubação. Big Biz, conforme se diz em meios que não frequento. Os pequenos anúncios que fazem a ida e dão vida ao sítio são fáceis de tirar e pagam o prazer de se tubar. Longa vida pois ao VocêTuba.

No mecanismo de busca, hoje mesmo vou colocar o nome do sítio em questão. Talvez como num filme barato de ficção científica dê um troço nele, se engasgue todo e perca seus dotes, para mim, mágicos.

Espero que não. É companhia, uma espécie de madeleine (olha o Proust aí de novo, só para não revelar que minha última procura foi o Ivon Curi) áudio-visual, coisa de velhos ou solitários, ou ambos, condição que vêm juntas, que eu não os sabia tanto no mundo.

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