Ivan Lessa: Pilosidades peludas

Eleitoras do partido conservador britânico param de se depilar em apoio à eleição

BBC Brasil |

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Mal recuperados da tunda eleitoral que levaram, os conservadores britânicos, ou melhor, suas seguidoras mais exacerbadas, começam a deixar cair. Para ser mais preciso, não deixam cair.

Um espectro ronda a Grã-Bretanha: fanáticas do partido de David Cameron, ora no poder, e só Deus sabe como, organizaram um movimento de protesto ou reivindicação político-social que, conforme a moda, ganhou o título de operação, ou movimento, Deixar Cabeleira Crescer.

A cidadã britânica Emeri O'Toole, de 28 anos, não se depila há 18 meses, desde que o pleito que teve lugar na semana passada foi ventilado pela primeira vez.

É uma forma de macumba local. Como, entre nós, enterrar frango nas imediações de uma baliza de campo de futebol, contando que isso vá dá azar ao time inimigo.

Emeri, que não era, ou ao menos não era, há um ano e meio, de se jogar fora, ao exibir para os diversos tabloides que a procuraram o resultado de seu compromisso social partidário, quando encontrou tempo para falar da questão generalizou: "Eu ponho em questão a beleza de meu corpo. Se Deus e a natureza me deram pelos, e em grande abundância, por que depilá-los?"

As fotos estampam os resultados de sua atitude. Por uma questão de gosto, a imprensa preferiu deixar em paz esta outra modalidade embriagadora que lançamos mundo afora junto com a caipirinha, o famoso, mais, o charmoso "brazilian", que continua a conquistar as multidões de nove entre dez estrelas de Hollywood.

À exceção de Julia Roberts, que, a propósito da rumorosa questão (ninguém está se importando com o pleito francês), teve foto a cores suas de braços erguidos, como se comemorando um gol, e exibindo de forma cinematográfica espalhafatosa a grossa mata capilar que lhe enfeita as doces e possivelmente (vamos esperar) cheirosas axilas.

Nisso é que dá mídia. Mídia pega como resfriado comum. Surgem agora, sob diversas formas, as poucas variações em torno do movimento ou modalidade "Deixar Crescer Cabelos".

Um blogue meio sobre o brincalhão (eu não faria graça com certas coisas), que leva por título "Vagenda", dedicou algumas páginas ao inesperado matagal britânico que de repente, não mais que de repente, passou a ocupar espaço na mídia local.

O "Vagenda", uma palavra etimologicamente cunhada do sufixo "agenda" e o curto, ou depilado prefixo "va", publicou na semana passada algumas considerações sobre as vantagens da não-depilação.

Explicou que, com a chegada do verão, o que há, na realidade, por baixo da hipócrita pressão da sociedade em que vivemos, é o fato de que as mulheres, pobres criaturas, herdaram esse hábito de se depilarem, que é mais mania do que outra coisa, beirando mesmo a automutilação.

Afinal, raciocina "Vagenda", as axilas, mesmo que fartas em pilosidade, continuam frescas e cheirosas, graças – e que remédio? – aos produtos de beleza.

Quanto às pernas, as blogueiras Vagendais preferem deixar que o assunto fale por si, embora nem eu nem ninguém ouvimos o que as mulheres de coxas e pernas cabeludas tenham a dizer.

Em branco também ficou a questão do bigodinho superior, aquele debaixo do nariz. Depreende-se tratar-se de questão de foro íntimo.

Qualquer dúvida a respeito de outros aspectos da agora rumorosa questão que passe pela cabeça da senhora ou senhorita, basta googlar aí "vagenda blog".

Embora, por uma questão que jamais será discutida pelos Brics, eu, se fosse jovem e bela, continuaria me depilando até onde fosse possível. Uma vez "brazilian" sempre "brazilian".

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