Ivan Lessa: Vassalos da ambição

Inglaterra enfrenta "Titanic" de pubs e conselhos se mobilizam para evitar fechamentos

BBC Brasil |

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Aqui é "council" e "councillor". Cada região administrativa tem os seus. Conselhos e conselheiros. Eleitos.

Serão nossos vereadores e vereanças? Prefeitinhos? A cada dia que passa me esqueço mais de como se processava a esculhambação geral que era ordenar e coordenar, melhor dizendo, ordenhar, os diversos municípios – bairros? – que ficavam sob o comando desses camaradinhas.

Tenho a impressão de que tudo saía ou vinha incluído no imposto predial. Acho. Passou muito tempo, só posso dar palpite. Sei apenas que era na base da improvisação, do pistolão e, nosso principal produto de consumo interno, hoje em dia, conforme já me chamaram a atenção, de exportação também: nosso lendário "jeitinho".

Assim, com conselhos ou vereanças, é que as coisas andavam ou, com sorte, ficavam no mesmo lugar. Havia algo com nome de prato africano que nunca entendi, mas sempre me cheirou a força motriz de nosso funcionamento.

Alvará. Ainda tem? Alguma alma boa pode me mandar um (ou uma, se for feminino) juntamente com umas duas latas de guaraná e uma caixa de paçoquinha?

Eu ficaria grato e mandaria de volta qualquer bugiganga marcando o afundamento do Titanic, que zarpou desta para melhor há 100 anos exatos no momento em que digito estas.

Após essas braçadas introdutórias, exausto e, sem salva-vidas, preparado para me acomodar ao leito de Netuno, vou ao que interessa.

O conselho local do bairro me faz saber, mediante um dos jornais por ele publicado (tem mais do que nossos 4 veículos e 3/4 de comunicação destrinchados em 47 artigos ou 342 páginas semanais do website Observatório de Imprensa – e ÔI proceis também), que os ilustres edis (será? Serão? Enfim, os "councillors") do bairro que me leva a alta taxa do conselho de Kensington & Chelsea, onde montei minha barraca, estão dispostos e tomando todas as providências necessárias para preservar uma das características do aprazível "borough" ou bairro tido como de suma importância para a capital do país.

Felizmente, nada a ver nem com os verdes e suas verduras e verdagens e nem com o raio dos Jogos Olímpicos que já fazem troar seus tiros com pólvora seca dando início ao revezamento 4 X 100 com barreiras para deficientes físicos (1 caixa de sapatos vazia, 3 embalagens de sabonete e 4 latas de refrigerante).

O que estão providenciando, ou torcendo o braço das autoridades que mais alto que eles bradam, é salvar literalmente a vida dos pubs tradicionais do bairro.

Beber é mais sério que toda informática do mundo. Tudo quanto é pub anda ameaçado da ação devastadora dos empreiteiros (malditos vassalos da ambição!) que compram a preço de licor de banana os estabelecimentos birinaiteiros, dão uns retoques e botam no mercado para vender como, conforme se anda dizendo no Brasil, flats.

Dá um dinheirão, mas descaracteriza Ken & Chelsea, como é chamado na intimidade. Não só por sua história, como também pela contribuição à paisagem geral das ruas daqui.

Por estas bandas, são raras as facadas ou tiros nas noites de sexta ou sábado, que ficam pra os bairros pobres, e as pancadarias chateiam um mínimo de pessoas.

Desde 1980, cerca de dois pubs são fechados por motivos ligados ao lucro inescrupuloso, segundo o viés bem intencionado daqueles que amam o bairro. E, de acordo com o conselho local, nos últimos 30 anos houve uma queda de 35% no número de pubs, qual seja, de 168 em 1980 passaram a 110 hoje. É um Titanic de pubs.

Mas providências enérgicas, como tudo que é oficial em qualquer parte do mundo, já estão sendo tomadas para evitar o encontro fatal com o iceberg da especulação.

Desnecessário será pedir auxílio ao botequim passando mais próximo. Até o dia 24 deste mês, todos os residentes têm onde manifestar sua opinião e fazer valer seus direitos de cidadão Kensington-Chelsoniano.

Pena que no Rio que passou não tenham defendido e tombado (no bom sentido) o Zepelim, o Jangadeiro, o Mau Cheiro, o Morte Lenta e o Bofetada, ali no perímetro Ipanema-Francisco Otaviano. Os "vassalos da ambição" (boa peça do Norman Mailer, bom filme também), como no filme de título idêntico, saíram, como de hábito, vencedores.

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