Os prós e contras de ressuscitar espécies

Por Alessandro Greco - colunista do iG* |

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Novas técnicas poderão em breve trazer animais extintos de volta à vida, mas essas tecnologias devem mesmo ser utilizadas?

Getty Images
Ilustração de um dodô, ave das ilhas Maurício extinta no século 17

Na semana passada, a possibilidade de trazer de volta à vida animais extintos foi tema de artigos em dois periódicos científicos: o prestigiado Science publicou dois textos, e o PLoS Biology, mais um. A questão técnica está superada: as tecnologias para realizar este feito estão basicamente disponíveis. O problema é muito mais como lidar com as questões éticas, sociais e legais de se entrar nesta seara.

Imagine pegar um tigre da tasmânia, um dodô ou um mamute, ou melhor dizendo, o DNA deles e voltar a ampulheta do tempo. Atualmente há três formas de se fazer isso conforme explicam Jacob Sherkow e Henry Greely, da Universidade de Stanford, Estados Unidos, em um dos artigos de Science. A primeira delas é fazer um cruzamento selecionado, caso a espécie extinta tenha deixado parentes próximos ainda vivos. Seria necessário analisar o DNA da espécie atual e fazer uma sequência de cruzamentos selecionados para que o DNA dos descendentes fique cada vez mais parecido com o do animal extinto como é o caso de um projeto na Europa que busca trazer de volta o bovino Auroque (Bos primigenius), ancestral do boi atual que foi extinto em 1627 segundo a Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN). A tecnologia, porém, supõe que o fenótipo do animal extinto tenha sobrevivido em seus descendentes e não irá gerar um animal idêntico ao extinto, mas parecido.

Outra tecnologia é a transferência nuclear somática, a mesma técnica que deu origem à ovelha Dolly, o primeiro mamífero a ser clonado. Cientistas espanhóis utilizaram-na para tentar trazer de volta uma cabra montesa do pirineu (Capra pyrenaica pyrenaica). Conseguiram um parcial sucesso ao gerar um feto, mas este morreu minutos após o nascimento devido a anormalidades no pulmão -- e foi o único de uma centena que chegou a ser feto, os outros sequer avançaram até este estágio. No trabalho, os cientistas usaram tecido da pele da última exemplar da espécie, uma fêmea, que morreu em 2000 que estava criopreservado. Ou seja: é necessário ter o tecido do animal extinto bem preservado para poder fazer a clonagem.

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A terceira possibilidade é fazer o sequenciamento do DNA de uma espécie extinta e editar o DNA de uma espécie similar atualmente viva até que este fique parecido com a extinta. Com esse animal de DNA editado pode-se então gerar descendentes. Obviamente não é tão simples quanto parece, mas, em tese, pode ser feito realizando-se o processo de edição e reprodução diversas vezes até se chegar em algo muito similar ao animal extinto. É o que Ben Novak, da Universidade da California em Santa Cruz, Estados Unidos, em parceria com a Fundação LongNow está buscando fazer com o pombo-passageiro (Ectopistes migratorius), extinto em 1914 segundo a IUCN. A técnica tem o mesmo “porém” do cruzamento selecionado. Gera um animal similar, mas não igual ao extinto.

Com o desenvolvimento dessas tecnologias – e elas avançam rápido -- é muito provável que os cientistas consigam em breve trazer um animal extinto de volta à vida.

A questão atual é muito mais como lidar com as questões éticas, sociais e legais de se entrar nesta seara.

A princípio qualquer uma das três tecnologias é uma maravilha, uma obra ímpar da biologia do século XXI, mas o que fazer com questões básicas como: o habitat desses animais mudou bastante desde que eles deixaram de andar sobre a Terra, então, o que vai acontecer com o ecossistema no qual eles foram inseridos? Sim, pode-se argumentar que o ecossistema irá de adaptar, porém não há garantias. Quem irá assinar embaixo que não iremos gerar uma catástrofe ecológica ao reinserir um ser vivo em um ecossistema ao qual ele não mais pertence? Ou até: será que ele não se tornará uma espécie invasora como aconteceu com os gatos na Nova Zelândia e depois talvez nós queiramos tirá-los dos caminho (expressão educada para matá-los) porque estão criando um problema para outros animais?. Além disso, eles podem se tornar um problema para nós mesmos, tornando-se hospedeiros de patógenos e causando doenças.

O outro lado da moeda é o fato de que alguns dos animais atualmente extintos foram varridos da face da Terra pela ação humana. Seria então uma questão de justiça com estes animais trazê-los de volta à vida. Mas o quão justo é colocar um animal em um ambiente que não é o dele, sem outros de sua espécie em volta, em um habitat que não é mais o seu, e deixar que seus instintos cuidem de sua sobrevivência? E qual o limite ético dos cientistas, nesta tentativa de se sentirem todo-poderosos?

No entanto, não me parece que haja uma resposta pronta para a direção a seguir na questão de trazer ou não de volta à vida animais extintos.

O mais sensato me parece seguir o que foi feito com o uso da tecnologia do DNA Recombinante (popularmente chamada de transgenia) em 1974 após o químico americano Paul Berg ter publicado em 1972 um artigo científico mostrando que era possível misturar o DNA de dois seres diferentes: uma moratória voluntária em certos tipos de pesquisa na área, uma parada estratégica para se debater as questões ligadas ao seu uso.

Em 1975, ano seguinte ao apelo, foi realizada a Conferência de Asilomar, na Califórnia, Estados Unidos, um encontro que contou com mais de 140 pessoas, entre cientistas, médicos e advogados, para falar sobre o tema. Ao final dela, foram criadas diretrizes para a pesquisa em biotecnologia nas quais os cientistas se baseiam até hoje para fazer pesquisas na área.

Um detalhe interessante é que o pedido de moratória voluntária e o organizador da Conferência foram o próprio Berg – ninguém melhor do que um descobridor para entender os potenciais de uma tecnologia.

Está na hora de um novo Berg pedir uma nova Asilomar.

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*Alessandro Barros Greco é jornalista e engenheiro mecânico pela POLI-USP. Escreve sobre ciência desde 1998. Acredita que falar sobre ela ajuda as pessoas a viver melhor. Foi o terceiro brasileiro a receber a bolsa Knight Science Journalism Fellowship do Massachusetts Institute of Technology (MIT)

 

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