Grandes rebanhos para controlar a desertificação

Por Alessandro Greco - colunista do iG* | - Atualizada às

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O biólogo Allan Savory acredita que o uso de animais é a solução para regenerar pastagens

Reprodução
Allan Savory durante sua palestra no TED: indo na contramão do conhecimento científico

O título deste artigo não está errado por mais estranho que ele pareça à primeira vista. A hipótese de que grandes rebanhos, por exemplo, de gado e ovelhas, são a melhor forma de reverter a desertificação das pastagens é do biólogo Allan Savory e foi apresentada recentemente no TED, o evento sobre tecnologia, arte e design para o qual os mais proeminentes cientistas, empresários, educadores, visionários olham quando querem se inspirar.

Desertificação é o processo de degradação de terras produtivas, normalmente causada pela atividade humana. Ele engloba a erosão do solo e perda de fauna e flora, com eventual extinção e invasão de espécies exóticas. A terra perde sua fertilidade e nada mais cresce, seja vegetação natural ou plantações agrícolas.

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Em sua palestra, Savory basicamente afirma que o movimento de grandes rebanhos através uma região protege o ambiente e evita o processo de desertificação.

Ao atravessarem uma área, eles deixariam uma camada protetora de estrume, solo e poeira. Esta mistura seria a base para que o solo pudesse crescer novamente no ano seguinte. A técnica de fazer milhares de animais se moverem em bandos por terras degradadas de forma a mimetizar os grandes rebanhos de antigamente –que literalmente estavam se movendo em busca de comida e para escapar de predadores — foi batizada por Savory de “Holistic Management” (Manejo Holístico em tradução livre).

Conferência da ONU: Especialistas conseguem incluir desertificação na pauta da Rio+20 

Getty Images
Processo atinge quase metade da superfície terrestre. Na imagem, desertificação na Etiópia

Mas durante décadas ele próprio pensou o contrário e foi responsável pela morte de 40 mil elefantes em parques nacionais da África. Afinal, a cartilha dos biólogos rezava que os grandes causavam a desertificação e não o contrário. "Foi a mais triste e maior tolice da minha vida. Irei carregá-la para o túmulo”, relembrou ele durante a palestra.

O manejo holístico ajuda ainda, segundo Savory, o clima ao evitar que seja usado fogo na tentativa de restaurar o solo, uma técnica que esgota a terra pois tira dela suas camadas básicas, além de jogar toneladas de carbono na atmosfera. Nas contas de Savory queima-se na África atualmente um bilhão de hectares ao ano e apenas um hectare sozinho joga sozinho na atmosfera mais poluentes que seis mil automóveis. Obviamente o manejo holístico também captura carbono ao reverter a desertificação.

Na página do Instituto Savory há diversos estudos de casos de reversão de desertificação na África, Austrália e América do Norte.

Se a hipótese de Savory vingará e salvará os solos do mundo ou não é uma questão que precisa ainda ser avaliada. Agora que é uma ideia muito, muito, interessante, isto é.

A apresentação de Savory, em inglês, pode ser assistida aqui.

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*Alessandro Barros Greco é jornalista e engenheiro mecânico pela POLI-USP. Escreve sobre ciência desde 1998. Acredita que falar sobre ela ajuda as pessoas a viver melhor. Foi o terceiro brasileiro a receber a bolsa Knight Science Journalism Fellowship do Massachusetts Institute of Technology (MIT) 

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