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Transtorno bipolar infantil desafia profissionais da saúde

17/03 - 00:06 - Agência Estado

Uma vida de altos e baixos. Um comportamento instável, que combina momentos de agitação e euforia com longos períodos de prostração e desalento.

Sinônimo de sofrimento para os pacientes, o diagnóstico de transtorno bipolar é também uma grande responsabilidade para os familiares e ainda hoje um enorme desafio para os psiquiatras e psicoterapeutas.

Nas últimas décadas, profissionais da saúde acostumados a identificar o quadro bipolar em adultos passaram também a encontrá-lo em crianças e adolescentes. É muito raro em crianças muito pequenas, mas a partir de três anos e meio de idade o transtorno já pode ser eventualmente diagnosticado, com fases depressivas e eufóricas alternadas.

"São crianças desajustadas na sua relação com o meio, inclusive na percepção de si mesmas. A criança num momento se vê muito poderosa e desafiadora, e num outro momento é o extremo oposto, sente-se não inserida e rejeitada", avalia a psicóloga Jonia Lacerda Felício, doutora em psicologia clínica, professora da Faculdade São Camilo e psicóloga chefe do departamento na psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo.

A psicóloga conta que, entre crianças e adolescentes bipolares, o período de euforia traz uma "agitação maníaca marcada por comportamentos bizarros, que incluem atitudes provocativas, desafiadoras e mesmo arrogantes". Na outra ponta, a fase da depressão se caracteriza por um "desalento gravíssimo, com comportamentos autodestrutivos explícitos que podem chegar até a tentativas de suicídio".

Definido o diagnóstico, é importante prevenir novas crises. "Sabe-se que a doença vai prejudicar a longo prazo, uma vez que é cíclica, podendo voltar", ensina a doutora Lee Fu-I, médica do Serviço de Psiquiatria Infantil do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, que atende mensalmente cerca de 150 pacientes infantis com transtorno bipolar.

"O tratamento precoce traz uma evolução muito melhor na fase adulta. Você poupa muito sofrimento e a qualidade de vida na fase adulta é muito melhor", alerta a doutora Lee Fu-I. Para crianças, os medicamentos mais utilizados hoje em dia são os estabilizadores de humor do tipo anti-convulsivantes, sendo que entre eles o lítio é considerado padrão "ouro", isto é, o mais indicado de todos.

A intervenção medicamentosa é necessária e produz efeitos. Existem melhoras significativas, porém não é fácil reverter o problema completamente. Mas consegue-se fazer a criança funcionar bem melhor nos seus relacionamentos e nas suas metas, capacitando-a para construir o seu percurso de vida.

Juntamente com os remédios, o tratamento deve incluir também atividades de psicoterapia, tanto para o paciente como para os seus familiares. "O psicoterapeuta tem que falar com a família, não apenas com a criança. A família precisa se capacitar para lidar com a criança", conclui Jonia Lacerda.

Além da psiquiatria e da psicologia, a ação multidisciplinar para tratar a criança e adolescente com transtorno bipolar deve incluir também a pedagogia, para ajudar no desempenho escolar, quase sempre prejudicado em razão da doença.




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