O despertador toca e o corpo (às vezes) levanta. Já a mente costuma ficar presa em algum lugar de uma noite de sono não muito satisfatória.
E nem sempre é culpa da balada que durou até as 3h da madrugada. A explicação são os hormônios. Adolescentes, diz uma pesquisa recém publicada no "The New York Times", não foram feitos para acordar antes das 8h e dormir antes das 23h.
Diferentemente dos adultos e crianças, os teens começam a produzir a melatonina - um hormônio indutor do sono - por volta das 23h. E a produção da melatonina só pára por volta das 8h.
Aula começando muito cedo, segundo o artigo, é uma perda de tempo. Pelo menos 28% dos estudantes acabam dormindo na classe, de acordo com uma estatística da Fundação Nacional do Sono. Alguns estão tão sonolentos que nem conseguem comparecer ao colégio, aumentando as taxas de evasão escolar. Além disto, a privação de sono entre crianças tem sido relacionada à obesidade e à problemas de aprendizado, déficit de atenção e hiperatividade.
Diante destas evidências, muitas escolas norte-americanas tentaram mudar o horário de início do dia letivo. Assim, as aulas que começavam às 7h30 foram parar às 8h40. As notas dos alunos subiram sutilmente e continuamente, enquanto que os problemas de comportamento e as desistências diminuíram.
No Brasil, teve escola que tentou o mesmo, mas sem sucesso. "Antes oferecíamos aulas complementares no período da tarde para os adolescentes, mas agora passamos todos para o período da manhã devido à baixa procura. Os adolescentes não querem estudar à tarde", diz a psicóloga e diretora pedagógica do Colégio Global, Eliana de Barros Santos. "Sempre que planejamos atividades à tarde, procuramos organizar de tal forma que sejam após as 15h30. Eles precisam dormir depois do almoço, pois dormem muito tarde à noite e levantam cedo para as aulas."
Eliana tentou convencer os adolescentes de que à tarde eles lucrariam com as aulas, mas ainda assim eles rejeitaram a idéia. O adolescente Gabriel Leal, de 16 anos, que não tem opção e acorda todo dia às 6h30 da manhã, garante que, se pudesse, iria à escola em outro período. "Se tivesse a opção de estudar à tarde, com certeza escolheria", diz ele. Como à noite ele não consegue domar seu relógio biológico e só vai para a cama depois da meia-noite, tem um truque para estar na escola às 7h30. "Tomo banho gelado", revela.
Outro que defende horários mais flexíveis para os adolescentes é o biólogo Luiz Menna-Barreto, membro do Grupo Multidisciplinar de Desenvolvimento e Ritmos Biológicos da USP. " A melhor medida para os adolescentes é começar mais tarde (8h30-9h) e, se for escola em tempo integral, oferecer uma "janela" depois do almoço, começar a tarde com atividades mais leves e carregar no final. A idéia que um cérebro aprende melhor quando recém-acordado ("fresquinho") não tem fundamento real", explica o biólogo.
Ainda que exista uma tendência de os adolescentes lucrarem mais atrasando o horário das aulas, Barreto diz que iniciar as aulas às 7h30 pode ser uma questão de costume. "Depende bastante dos hábitos locais (rurais-urbanos)." O que tem sido verificado nos ambientes urbanos, em vários países, é a eficácia de uma mudança que coincide com a adolescência - quando os ritmos tendem a atrasar, de uma a duas horas.
Segundo o neurologista Luciano Pinto, da Unifesp, esta alteração no ritmo de adolescente ocorre não apenas por fatores hormonais, mas também sociais. "Esta é a época em que ele começa a sair à noite", lembra Pinto.
Essa tendência ao atraso, segundo o biólogo Menna-Barreto, nos ajuda a entender melhor a dificuldade de acordar um jovem cedo pela manhã. "Por outro lado, existe uma tendência inversa na terceira idade, quando as pessoas costumam acordar e ir dormir mais cedo", diz.
Adaptação dos pequenos - Embora não tenham um relógio tão atrasado quanto o dos adolescentes, as crianças podem, eventualmente, sofrer um pouquinho para se adaptarem ao início das aulas. Semanas antes de as aulas começarem para Clara, de 3 anos, e Laura, de 4 anos, a professora Andréa Reimberg envolveu as meninas nos preparativos para o início do ano letivo. As duas, que dormiam por volta das 22h, começaram a ir para a cama mais cedo na última semana das férias. Na metade de janeiro, as três organizaram o material escolar juntas. No fim de semana anterior à escola, foram ao supermercado e compraram lanches. Andréa acredita que todo este processo criou uma expectativa positiva nas meninas, inclusive em Clara, que estreou no colégio. "Ela está super animada e está ficando na escola cada vez mais tempo. Fazer as coisas aos poucos traz mais tranqüilidade", diz Andréa.
Luciano Pinto, da Unifesp, diz que dura de uma semana a dez dias o período de privação de sono. E aconselha as mães a fazerem o mesmo que Andréa fez. "Uma semana antes das aulas, é bom tentar adaptar o ritmo ao das aulas", sugere.
Sono de adulto - Cada vez menos e mais tarde. Esta é a tendência do sono entre as crianças, segundo estudos do Laboratório do Sono do Instituto da Criança do HC-FMUSP. E, enquanto o tempo geral de sono dos pequenos diminuiu, sua qualidade piorou. "As crianças estão sofrendo dos mesmos problemas de sono que os adultos", diz a neurologista infantil Rosana Alves, do Instituto da Criança do HC-FMUSP.
Entre as principais desordens está a apnéia do sono, que são pausas na respiração. Em outro grupo, há os que sentem dificuldade para iniciar ou manter um sono de qualidade. Rosana ainda destaca os problemas com movimentação excessiva durante o sono.
Neste último exemplo, que engloba casos de sonambulismo, terror noturno (com gritos à noite) e despertar confusional (falar coisas sem sentido), as causas mais conhecidas são situações de estresse, febre e quadros mais freqüentes de privação de sono. Já as crianças que roncam ou apresentam pausas na respiração durante o sono têm em comum a obstrução das vias aéreas. A apnéia do sono pode evoluir para problemas cardiovasculares e de pressão alta. Crianças com estes problemas geralmente são mais agitadas durante o dia ou apresentam déficit de atenção e mais alterações de aprendizado.
A insônia tem como principal causa maus hábitos familiares, como ver TV à noite e ficar no videogame o dia inteiro. No Instituto da Criança, a equipe orienta a família a corrigir os hábitos, assim como a aconselha a agir em casos de sonambulismo e terror noturno (não se pode acordar ou chacoalhar a criança, por exemplo).