18/02 - 00:01 - Agência Estado
São Paulo - A campainha da casa de Deise (*), de 22 anos, toca e ela imediatamente fica agitada, com a pulsação acelerada e começa a transpirar incontrolavelmente. Há menos de dois meses a casa onde ela mora, em um bairro nobre da zona leste de São Paulo, foi invadida por um grupo de assaltantes armados.
Durante duas horas, ela e a família, sob ameaça dos bandidos, ficaram presos em um banheiro da casa. O assalto aconteceu no início da tarde e os bandidos entraram pela porta da frente da casa, após tocarem a campainha. O drama vivido por Deise faz parte de uma triste estatística que vem crescendo a cada dia em cidades onde a violência está aumentando.
Como assaltos, roubo, furto, seqüestros, seqüestro-relâmpago, acidentes de trânsito, violência sexual entre tantos outros tipos de violência urbana e interpessoal estão cada vez mais freqüentes, a resposta emocional das pessoas aparece sob a forma de Transtorno por Estresse Pós-Traumático (PTSD ou post-traumatic stress disorder, em inglês), uma perturbação psíquica decorrente de um evento ou fator que ameaça a integridade física das pessoas, sendo ele testemunha ou vítima. Conhecida como "neurose de guerra", a doença era diagnosticada, principalmente, entre pessoas que estiveram em meio a conflitos armados e guerras.
"Há 30 anos, sobreviventes de guerra apresentavam esses episódios de estresse pós-traumático, quando algum acontecimento acionava a memória do terror que testemunharam. Hoje em dia, com o aumento da violência urbana e doméstica, além dos inúmeros acidentes aéreos e tragédias naturais, provocadas por enchentes, incêndios e desmoronamentos, as pessoas vêm sentindo mais dificuldade em lidar com a crueldade embutida nesses episódios", afirma Luiz Gonzaga Leite, chefe do departamento de psicologia do Hospital Santa Paula (SP) e Doutor em Psiquiatria Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC).
"Estamos todos traumatizados. O simples toque da campainha me deixa apavorada, é como se tudo fosse acontecer novamente, eu revivo o assalto em câmera lenta, um pesadelo", diz Deise. Além das reações emocionais, entre eles, um fenômeno chamado de Flash Back, no qual a pessoa tem a sensação de estar vendo ou vivenciando a mesma situação, como se fosse uma cena de filme na frente dos olhos, ela também está sofrendo as conseqüências do assalto no corpo, principalmente falta de apetite, insônia e depressão.
Principais sintomas
Ansiedade, choro excessivo, insônia, hipertensão, irritabilidade e uma constante sensação de reviver, de rememorar o drama vivido são os principais sintomas de quem sofre de PTSD.
"Em uma situação de estresse, que provoca angústia, conflito, essas emoções tem duas vias de escape: ou desloca para a psique (mente, em grego) ou soma (corpo, em grego) - causando hipertensão, gastrite, problemas de pele e até desenvolver uma doença mais grave, como um câncer", afirma o médico.
De acordo com Leite, os sintomas surgem, normalmente, até três meses após o evento, quando "cai a ficha" do perigo ou agressão que ela passou, com mais freqüência no horário dos eventos ocorridos. "Pesquisas mostram que quando você se lembra de coisas positivas ou negativas seu corpo reage às esses estímulos. Através de uma configuração mental ele revive todos os sentimentos que passou com alterações no sistema nervoso".
Tipos de reação
As pessoas reagem de diferentes formas diante de uma situação de violência. Umas permanecem de forma racional e sob controle; outras podem se desesperar e entrar em pânico e outros simplesmente desmaiam, como se quiserem "apagar" tal situação. A forma como elas vão reagir após o evento também são distintas com reações diversas. Enquanto umas podem voltar à vida normal após alguns dias da experiência, outros podem se afundar numa profunda depressão decorrente do grande abalo causado pela situação de agressão vivida.
"A reação depende de cada indivíduo e do evento. Cada pessoa tem uma estrutura psíquica diferente e vai reagir de uma forma após ter vivido ou testemunhado uma situação de agressão. Teoricamente, os homens estão mais propensos a ter o distúrbio, já que as mulheres verbalizam mais os sentimentos, ao contrário deles".
O médico cita um estudo escrito por Sigmund Freud, psiquiatra e neurologista austríaco, em 1895, que destaca os mecanismos de defesa, ações estas que ajudam a nos poupar de situações estressantes. Entre esses mecanismos está a racionalização do evento: "poderia ter sido pior", "o ladrão poderia ter me matado", "eu poderia ter morrido no acidente", entre outras observações. A negação do fato também é utilizada como uma "válvula de escape" para não sofrer.
O médico cita casos de reações de pacientes que receberam diagnóstico de câncer, por exemplo. Para se "defender" do trauma, o paciente nega e diz "o laboratório deve ter trocado meu nome no envelope", "o exame está errado", entre outras.
Tratamento
Segundo o psicólogo, para evitar que os sintomas comprometam a imagem do paciente dentro do local de trabalho ou mesmo suas relações pessoais e familiares, o ideal é buscar ajuda especializada para que a vítima possa atenuar os sintomas e se preparar para lidar com essas lembranças. O tratamento é feito através de medicamentos e psicoterapias e pode durar de três a seis meses.
"A psicoterapia cognitiva comportamental é a que dá os melhores resultados neste caso", afirma Leite. Mas o médico alerta que é preciso diagnosticar o trauma e não ignorar o tratamento. "O maior risco é a pessoa entrar em um processo de somatização e manifestar no corpo doenças como gastrite e até síndrome de pânico", afirma. "Muitas vezes a doença é uma forma de expressão psíquica, uma forma de linguagem do corpo. Se você vive uma situação de estresse, o corpo imediatamente responde".
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