SÃO PAULO - Com o início de mais um ano, muita gente renova as esperanças de tocar novos projetos e adquirir novas atitudes perante a vida. Esta atitude de otimismo, sentimento que parece tornar-se coletivo após as festas de dezembro, é um dos elementos principais da força resiliente.
Originalmente, resiliência é um termo emprestado da física. "Significa resistência ao choque ou a propriedade pela qual a energia potencial armazenada no corpo deformado é devolvida quando a tensão incidente sobre ele cessa", define o economista e escritor Tom Coelho, especialista em qualidade de vida no trabalho pela USP. É o que acontece quando o elástico retoma seu aspecto inicial após passar pela distensão.
A exemplo da popularização do conceito de sinergia, a palavra resiliência tem sido igualmente incorporada ao repertório dos estudos comportamentais. Nesta mesma linha, o best seller "O Segredo" se valeu de outra máxima da física, a Lei da Atração, para argumentar que o homem atrai imagens construídas em pensamento.
A concepção de resiliência já virou título da literatura de auto-ajuda também. Recém-lançada pela Editora Vozes, o livro "Resiliência - A Arte de Dar a Volta por Cima", de Rosette Poletti e Barbara Dobbs, apropria-se do conceito científico da deformação elástica para propor a neuro-elasticidade. Ou seja: a surpreendente capacidade de algumas pessoas no enfrentamento de adversidades.
Doutor em Psicologia e professor do Instituto de Pesquisas e Desenvolvimento Aliança, George Souza Barbosa diz que a resiliência não se limita à superação de obstáculos. O sujeito resiliente seria capaz de transformar problemas em trampolins para o seu desenvolvimento. "Trata-se de viver a experiência transcendental do renascer das amarras da adversidade. Porém, não na condição de vitimizados, mas enriquecidos pela experiência do sofrimento", diz.
Resiliência é a força inabalável que transformou o catador de latinhas Roberto Vasconcellos no designer internacional de bolsas Roberto Vascon, 46 anos. "Meu nome é determinação", diz ele. Foi essa mesma garra que permitiu à professora universitária Elaine Castro, 32 anos, superar problemas financeiros. "Fui fiadora de uma amiga e tive de vender muitas coisas para cobrir a dívida. Tinha dois empregos e um bebê, estudava e oferecia suporte para um marido desempregado e em depressão. Só alguém resiliente passa por esses desafios sem adoecer, sem perder os sonhos", opina.
A artista plástica Silvana de Mello Ramos, 42 anos, conta que descobriu-se mais forte diante da paralisia do pai, preso ao leito há dez anos por conta de um acidente vascular cerebral, o derrame. "Levantei, sacudi a poeira e acreditei que tínhamos de passar por aquilo. Percebi o quanto me deixo envergar e o quanto isso me fortalece. Posso estar desmoronando, limpo as lágrimas, suspiro e enfrento tudo com alegria".
Entre famosos e anônimos, a história da humanidade está cheia de figuras resilientes. "Quando prisioneiro em Auschwitz, o psicólogo Victor Frankel dizia que as pessoas que tinham um propósito na vida sobreviveram ao holocausto. Muitas cometeram suicídio por já terem a morte como certa, minando a chance de buscar alternativas. Frankel relata que se imaginava palestrando em uma sala com calefação sobre sua experiência no campo de concentração e isso o aquecia nos dias mais frios", relata a psicóloga Lisete Barlach.
Autora da dissertação de mestrado "O que é Resiliência Humana: uma Contribuição para a Construção do Conceito", Lisete garante que qualquer pessoa pode desenvolver propriedades resilientes. "Nos anos 60, pensava-se que a resiliência era inata em certas pessoas, mas vimos que essa habilidade pode ser cultivada. Elementos como a religiosidade e arte ajudam nesse processo de re-significação do evento traumático vivido pela pessoa" diz.
Ela lembra o caso da mexicana Frida Kahlo, que descobriu ser uma pintora genial quando tentava se entreter com a arte para amenizar a dolorosa recuperação de um acidente que lhe custou mais de 30 cirurgias. O testemunho de Vascon também corrobora com o ponto de vista da psicóloga. Ele atribui sua determinação à fé. "Sempre conversei com Deus e prometi que repartiria o que ele me desse com quem tem menos. Comecei a trabalhar com cinco anos, vendendo tempero e ferro-velho no interior de Minas Gerais. Dormia em uma cama feita com dois caixotes, meu colchão era um saco de pano preenchido com capim, calcei meu primeiro sapato aos 12 anos. Mas eu sempre fui alegre, a determinação que via em minha mãe me animava. Aos 19 anos, fui de carona para o Rio de Janeiro porque queria ser ator", diz.
Empregado em uma loja de móveis, Vascon juntou dinheiro e partiu para os Estados Unidos. "Tinha só o primário, achei que precisava falar inglês para melhorar. Sonhava em comprar uma casa para minha mãe. Cheguei no aeroporto e andei o dia todo até Manhattan. Deitei no banco do Central Park, dormi lá. Tive um sonho com passarinhos que levavam muitas bolsas. Juntando latinhas, arrumei dinheiro para comprar couro e agulha e costurei 12 bolsas do nada. Uma moça se aproximou, perguntou se eram italianas e comprou todas. Ela era do jornal "The New York Times", me transformou em uma estrela no país. Madonna, Cindy Lauper e outras estrelas vieram comprar meus produtos", lembra.
Pouco tempo após o episódio, Vascon abriria sete lojas. "Comprei aquele apartamento que eu via lá do Central Park, deitado no banquinho", conta. E, de tão confiante em sua capacidade de ressurgir das próprias cinzas, tal como conta o famoso pássaro Fênix da mitologia grega, fechou todas as lojas e passou a viajar pelo mundo. "Percebi que dinheiro não resolvia tudo quando fui a um jantar de 12 talheres e saí com fome porque não sabia comer. Faltava bagagem cultural. Então, saí por aí, construí casas para pessoas na Índia, no Afeganistão... Comprei material escolar para muita gente. Os sorrisos e olhares que recebi não há dinheiro que pague." O que Vascon, Elaine e Silvana têm em comum? Barbosa acredita que toda resiliência se relaciona com o exercício das seguintes propriedades: imaginação, flexibilidade, determinação e habilidade para manter vínculos pessoais. "A resiliência psicológica é aplicada por meio de programas de capacitação, com profissionais. Certas pessoas, porém, têm índices elevados de resiliência sem freqüentar escolas ou treinos em empresas. Pais, professores e amigos podem contribuir para isso", diz. Isso explica, possivelmente, a trajetória de Vascon - que conta ter enriquecido sem nunca ter lido um só livro até o final. Hoje, além de gerenciar suas bolsas em Belo Horizonte e EUA , ele se ocupa em projetar sapatos. Um desejo antigo sonhado naqueles 12 anos descalços do início de sua vida.
Persistência famosa
Lima Duarte cresceu ouvindo de sua mãe que "não tinha porte de galã para virar ator". Ao procurar o rádio, argumentaram que ele "falava para dentro, não servia para as radionovelas". Uma lembrança das profecias de fracasso que recebeu naquela época empoeira até hoje na parede de seu apartamento: com água nos olhos, ele aponta a nota de 500 réis que ganhou da família quando partiu do interior de Minas Gerais para São Paulo, determinado a tornar-se artista.
"Tenho orgulho por não ter usado este dinheiro. Cheguei em São Paulo em um caminhão de manga e passei a minha primeira noite no Mercado Municipal. Tinha 16 anos. Sozinho, fui morar na zona com uma cafetina chamada Madame Poletti. Foi ela quem me levou para fazer testes na Rádio Tupi", contou à reportagem.
Lima Duarte só conseguiu empregar-se como operador de som. Era o início de uma carreira de sucesso que se estenderia por mais de 60 anos. "Provei muita coisa para mim mesmo", completa. Provou que resiliência é uma força que tem movido o ser humano muito antes que uma palavra surgisse para defini-la.