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Estudiosos comparam pesquisas de célula-tronco com Santo Graal

27/12 - 09:39 - AFP

Em 2007 dois grupos de cientistas conseguiram transformar células da pele humana em células-tronco, abrindo um caminho potencialmente ilimitado para a substituição de tecidos ou órgãos defeituosos, segundo dois estudos divulgados durante o ano.

Esta descoberta, feita por uma equipe japonesa e uma americana, "vai mudar completamente o campo das pesquisas", considerou James Thomson, autor do estudo americano publicado pela edição online da revista "Science".

"Isto é realmente o Santo Graal: poder tirar poucas células de um paciente - com uma mostra da bocheca ou algumas células da pele - e convertê-las em células-tronco no laboratório", disse Robert Lanza, diretor da empresa de biotecnologia Advanced Cell Technology, para quem este trabalho "representa um avanço científico extraordinário que é um pouco como aprender a converter o chumbo em ouro".

As células-tronco são consideradas esperança de cura para algumas das doenças mais mortais, porque podem evoluir para células de 220 tipos diferentes do corpo humano. Elas podem se tranformar em qualquer célula do corpo e, por isso, podem substituir células danificadas e permitir a reconstrução de órgãos e tecidos.

Mas o acesso às células-tronco embrionárias, mesmo para fins de pesquisa, é limitado em razão de considerações éticas sobre a utilização e a clonagem de embriões humanos.

O presidente americano, George W. Bush, proibiu todo tipo de financiamento federal para pesquisas com células-tronco embrionárias, as quais é difícil o acesso - inclusive nos países que autorizam a investigação - pela dificultade de encontrar doadores.

Além disso, os órgãos transplantados obtidos a partir de células-tronco embrionárias podem ser rejeitados pelo paciente. Esta nova técnica, uma vez aperfeiçoada, poderá permitir a criação de células-tronco com o código genético do paciente, eliminando esse risco.

A nova técnica é tão promissora que o escocês Ian Wilmut, o cientista que conseguiu clonar a primeira ovelha do mundo, Dolly, anunciou que deixará de lado sua pesquisa sobre clonagem de embriões para se centralizar em células-tronco derivadas da pele, julgando que "nos leva a uma era inteiramente nova para a biologia".

Uma das maiores vantagens da nova técnica é sua simplicidade. E as células da pele são muito mais simples de obter que os embriões.

Se os cientistas tiverem acesso mais fácil às células-tronco, poderão avançar mais rapidamente nas pesquisas para o tratamento de câncer, do mal de Alzheimer, da doença de Parkinson, do diabetes, da artrite, de lesões na coluna, de queimaduras e de doenças cardíacas.

Este trabalho "é monumental por sua importância no campo da pesquisa com as células-tronco embrionárias e por seu impacto potencial sobre nossa capacidade de acelerar as aplicações desta tecnologia", comentou Deepak Srivastava, diretor do Instituto Gladstone para doenças cardiovasculares.

As duas equipes conseguiram transformar as células da pele em células-tronco inserindo quatro genes diferentes nas células por meio de um retrovírus.

A equipe japonesa, conduzida por Shinya Yamanaka da Universidade de Kioto, conseguiu criar uma linhagem de células-tronco a partir de 5.000 células. Seu estudo foi apresentado no dia 30 de novembro na revista Cell.

"Esta eficácia pode parecer muito pequena, mas significa que a partir de apenas uma única amostra de 10 centímetros podemos obter múltiplas linhagens de células-tronco com muito potencial (induced pluripotent stem cells, iPS)", explicou.

Jacob Hannah e sua equipe do Whitehead Institute para Biomedical Research de Cambridge já mostraram uma aplicação em ratos que sofriam de anemia tratando-os com iPS (células adultas reprogramadas ou células próximas do estado embrionário), obtidas a partir de células de sua própria pele.

A equipe americana de James Thomson, da Universidade do Wisconsin em Madison, pioneira na obtenção de células-tronco embrionárias em 1998, conseguiu reprogramar uma célula em 10.000, mas sem recorrer a um gene conhecido por ser cancerígeno.

As duas técnicas apresentam riscos de mutação, pois as células conservam uma cópia do vírus utilizado para inserir os genes nelas.

A próxima etapa-chave, segundo o artigo da Science, será encontrar um meio de ativar os genes que permitem às células da pele se tornarem células-tronco sem a utilização de retrovírus.

"É quase inconcebível, da forma como a ciência evolui, que não consigamos chegar a um meio de obter isso", declarou à revista Science Douglas Melton, especialista na pesquisa com células-tronco da Universidade de Harvard.

"É um explosão de recursos", disse Konrad Hochedlinger, do Stem Cell Institute da universidade de Harvard. Antes dessa descoberta, a dificuldade de acesso às célula-tronco embrionárias obrigava, ocasionalmente, aos pesquisadores realizar seus trabalhos com a animais e órgãos de cadáveres.

Os cientistas pedem de todas as formas prudência. "Esta nova investigação é só o início: apenas entendemos como funcionam estas células", explicou James Thomson.

"Se conseguirmos superar os problemas de inocuidade, poderemos utilizar as células iPS humanas nas terapias de transplante celular", disse Yamanaka, que considera entretanto "prematuro concluir que as células iPS possam substituir as células-tronco embrionárias".

"Ainda estamos distantes da descoberta de tratamentos ou de terapias a partir de células-tronco", lembrou.





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