A cama de casal ao lado do berço está cheia de presentes vindos de vários cantos do País. Marcela de Jesus Ferreira não sabe, mas é tudo para ela. Hoje a menina completa um ano de vida apesar de uma grave malformação do cérebro, diagnosticada inicialmente como anencefalia.
Em Patrocínio Paulista, a 420 quilômetros de São Paulo, onde Marcela vive com a família, não se fala em outra coisa. A pedido da mãe, católica fervorosa, o padre vai rezar uma missa pelo primeiro aniversário da menina. Cacilda Galante Ferreira, 36 anos, até pensou em dar uma festa no clube do município, mas a médica que cuida de Marcela não deixou, porque seria arriscado mantê-la num ambiente fechado com muita gente por causa de riscos de contaminação com infecções.
Para a data não passar em branco, a família vai festejar em casa mesmo, com a presença dos médicos e agentes do Programa Saúde da Família que acompanham o caso da menina desde o início. “O maior presente que ela recebeu foi a vida”, disse a mãe. “De minha parte, dou todo o amor e carinho que posso.”
Agricultora, Cacilda soube que carregava no ventre um feto sem o cérebro no quarto mês de gravidez. De acordo com os prognósticos, após o parto a menina deveria sobreviver por apenas 15 minutos. A mãe negou-se a fazer aborto e decidiu que cuidaria da criança segundo a vontade de Deus.
Marcela nasceu com 2,5 kg e 47 cm na Santa Casa de Patrocínio Paulista. Ela não tem a chamada calota craniana, nem o córtex cerebral. Acima da testa, há líquido envolto por uma pele rosada. A menina se alimenta com uma sonda, a cada três horas. Como seus movimentos são limitados, engordou bastante nesses doze meses: está com 12 quilos e 70 cm. Uma criança normal chega a essa idade pesando entre 9,5 kg e 10 kg e com altura que varia de 74 cm a 76 cm.
Até a última ressonância realizada há duas semanas, Marcela era um mistério para a medicina. O tempo de vida da menina e a fé de Cacilda serviram de argumento para a Igreja católica na discussão do aborto em casos de anencefalia, que hoje só é permitido com autorização da Justiça. Alheia às polêmicas científicas, religiosas e judiciais, a família de Marcela só quer comemorar. “A roça tá em festa e nós estamos felizes”, disse a mãe. As informações são do "Jornal da Tarde".