iG - Internet Group

iBest

brTurbo

 

publicidade

 

iG BUSCA

enhanced by


Home > Notícia
  • Tamanho do texto
  • A
  • A

Uso de remédios vira explicação freqüente para furtos

02/04 - 19:51, atualizada às 09:25 03/04 - Agência Estado

SÃO PAULO - É tudo culpa do remedinho para dormir. Será? Essa tem sido a justificativa padrão de figuras públicas para explicar o envolvimento em constrangedores flagrantes de furto.

 

Em apenas dois meses, dois homens famosos no Brasil protagonizaram casos quase pitorescos, com estranhos objetos de desejo - das gravatas do rabino Henry Sobel, na semana passada, aos vasos de cemitério do estilista Ronaldo Ésper, no fim de janeiro.

Em 2005, a novela "América" (por meio da personagem Haydée, de Christiane Torloni) mostrou que roubar objetos banais para sentir prazer é uma patologia séria e não um simples desvio de caráter, como muitos poderiam supor.

Com amplos registros nos manuais de psiquiatria, o distúrbio é classificado pelos médicos como elemento do grupo dos Transtornos de Controle dos Impulsos, categoria que inclui ainda o jogo patológico (comportamento pendente com relação a apostas e jogos de azar), a tricotilomania (ato de arrancar os próprios cabelos de modo recorrente) e piromania (hábito de incendiar objetos e lugares por alívio de tensão).

A psicóloga Nancy Erlach destaca que a falta de premeditação do furto é que diferencia o cleptomaníaco de um criminoso ordinário. "Sabe aquela vontade que você sente de comer um doce? O cleptomaníaco sente o mesmo tipo de desejo pelo ato de roubar", explica a profissional.

A psiquiatria relaciona o gosto por atos perigosos (como o furto) com o impulso sexual. Isso explica a fissura por itens pontudos (como talheres e canetas, que assumem o papel de símbolos fálicos por lembrarem os órgãos sexuais masculinos), sensuais (sobretudo lingerie) ou brilhantes.

Uma vez que a cleptomania se refere a objetos banais, cujo furto não é motivado pelo valor do item em questão, mas, sim, pela sensação que a apropriação do objeto traz para o praticante, muitos profissionais de saúde mental questionaram a plena sanidade de Sobel com base nas peças escolhidas por ele: quatro gravatas das grifes Louis Vuitton, Giorgio's, Gucci e Giorgio Armani que, juntas, somam U$ 680.

"O valor dessas gravatas é caro para quem? Certamente, o preço é elevado para o brasileiro médio, mas não para Henry Sobel. Este foi um grave erro cometido pela imprensa ao abordar o tema", argumenta o psiquiatra Hermano Tavares, coordenador do Ambulatório dos Transtornos de Impulso do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP).

"Vi profissionais de saúde falando barbaridades. Se vamos seguir esse raciocínio, então estaremos dizendo que, em todo furto, o rico é cleptomaníaco e o pobre é safado? Não é só o valor do objeto que determina se a pessoa está doente", completa.

Para Tavares, é preciso analisar as motivações do furto. "O que Sobel faria com quatro gravatas? Ele as roubou para usar no mesmo dia? Está claro que não houve ganho primário neste caso. Não é o valor da coisa que determina a cleptomania, mas sim a utilidade para quem está furtando", diz o especialista.

Tavares não arrisca um diagnóstico preciso para Sobel por desconhecer o tipo exato de medicação ingerida por ele - drogas estas que teriam, supostamente, desencadeado o ataque às gravatas -, mas lança hipóteses.

"Muitos pacientes preferem a condenação da Justiça a admitir que perderam o controle. É preciso considerar ainda a influência dos medicamentos benzodiazepínicos. É improvável, mas não impossível, que provoquem um rebaixamento do nível de consciência." A expressão clínica "rebaixamento de consciência" pode ser entendida como considerável queda do nível de atenção da pessoa.

"Em uma situação como essa, o indivíduo vê um objeto que a interessa e se apodera dele sem considerar as diversas implicações, como ter de pagar por aquilo", explica Tavares. Apesar do complicado nome científico, benzodiazepínicos são muito populares no mercado farmacêutico. Usados para tratar até insônia, são antidepressivos e ansiolíticos que estão à venda sob nomes como Lexotan, Diazepan e Lorax.

"Em doses baixas, ajudam a conter a ansiedade, em doses moderadas agem como sedativos e em dosagem elevadas funcionam como hipnóticos", diz Tavares. Vale lembrar que Sobel e Ésper disseram estar sob efeito justamente de antidepressivos durante os furtos.



US Multimídia


Publicidade


Matérias Relacionadas


Enquete