Paris, 2 fev (EFE).- O aquecimento climático da Terra é irreversível devido às emissões de gases do efeito estufa na era industrial, e, em função da ação humana, o aumento ficará este século entre 1,8 e 4 graus Celsius, embora não esteja descartado outro salto ainda maior, de entre 1,1 e 6,4 graus.
Estas são algumas das principais conclusões do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), que apresentou hoje seu quarto relatório sobre as bases científicas do aquecimento, que considera "inevitável".
"Agora temos uma certeza maior do que está acontecendo" que no estudo anterior, de 2001, afirmou a co-presidente do grupo encarregado do trabalho, Susan Solomon.
Segundo Solomon, há uma probabilidade de 90% de que o aumento da temperatura da Terra se deva à concentração de gases do efeito estufa devido ao consumo, pelo homem, de combustíveis fósseis.
Mesmo que as emissões se mantivessem no nível atual, "muito provavelmente" o aquecimento no século XXI será superior ao constatado no século XX, alertou Solomon ao apresentar o documento.
O efeito acumulado da poluição acarretará uma alta da temperatura de cerca de 0,2 grau Celsius por década nos próximos vinte anos, e depois a alta será de 0,1 grau a cada dez anos.
Na mais otimista das estimativas, sob a condição de haver uma rápida mudança nas estruturas econômicas para torná-las sustentáveis, o aumento seria de 1,1 grau até 2100 comparado às temperaturas constatadas no período 1980-2000, abaixo do limite de 2 graus, a partir do qual os cientistas consideram que as conseqüências seriam incontroláveis.
Mas, se a população e a economia continuarem crescendo rapidamente e se for mantido o consumo intenso das energias fósseis, a alta poderia chegar a 6,4 graus Celsius.
Seja qual for o cenário que ocorrer, haverá conseqüências diretas, como a redução das nevadas e do volume das calotas polares, até o ponto em que o gelo do Pólo Norte poderia ser completamente derretido no verão, por volta de 2100.
Isso significaria, entre outras coisas, uma elevação do nível do mar que o IPCC calcula entre 18 e 59 centímetros, em função das diferentes hipóteses.
Os fenômenos climáticos extremos, como as ondas de calor ou as trombas d'água, continuarão sendo mais freqüentes, e nos ciclones tropicais a velocidade do vento e as chuvas serão mais intensas.
O aquecimento da Terra não será homogêneo, e será mais sentido nos continentes que no oceano, e mais no hemisfério norte que no sul.
Com relação às chuvas, serão mantidas as tendências observadas recentemente, com um aumento nas latitudes mais extremas e uma redução nas áreas subtropicais, o que significa, por exemplo, que a bacia mediterrânea será ainda mais árida.
Todas estas projeções se baseiam nas observações realizadas, entre elas que 11 dos 12 anos mais quentes desde que existem registros climáticos confiáveis, em meados de século XIX, aconteceram a partir de 1995, e que no século XX a elevação do nível do mar foi de cerca de 17 centímetros.
Segundo os cientistas, as emissões de dióxido de carbono (CO2) estão por trás de todos estes fenômenos. A concentração desse composto na atmosfera passou de 280 partículas por milhão antes da era industrial (em 1750) para 379 em 2005, sendo que desde 1995 o ritmo de aumento foi intensificado.
"Agora estamos muito mais certos da influência humana na mudança climática", afirmou o presidente do IPCC, Rajendra Pachauri, após admitir que a certeza científica nunca pode ser total.
Pachauri não se pronunciou sobre o que é preciso fazer e disse que no mundo dos negócios e na medicina deve-se tomar decisões sem ter uma certeza total.
Além deste, o IPCC realiza outros relatórios, entre eles sobre o impacto da mudança climática (a ser divulgado em abril), a forma de aliviá-lo (maio) e uma síntese direcionada aos responsáveis políticos (novembro). EFE ac pk/dgr