Vazamento no golfo exigiu que ciência fosse feita com prazo

Pesquisadores precisaram analisar em tempo recorde os impactos ambientais do acidente

The New York Times |

AP
Barco tenta recolher óleo da superficie do golfo do México
Em meados de dezembro, o telefone de Wes Tunnell tocou com um pedido que estragaria seus planos para as festas de fim de ano. A equipe que trabalhava com Kenneth R. Feinberg, o administrador do fundo de vinte bilhões de dólares para indenização das vítimas do vazamento de petróleo no Golfo do México, precisava da opinião de um especialista sobre quanto tempo levaria até que o golfo e seu camarões, peixes, caranguejos e ostras se recuperassem do dano causado pelo petróleo. Pior ainda, eles queriam isso em duas semanas.

"Eu acabei de mergulhar", disse Tunnell, biólogo marinho que trabalhou quase sem intervalo até 3 de janeiro, folgando apenas no Natal e metade do dia de Ano Novo, para produzir um relatório de 39 páginas. Este foi lançado em fevereiro como a base científica da metodologia de Feinberg para estabelecer acordos do fundo.

O relatório de Tunnell é uma projeção que se situa em algum ponto entre o andamento voluntário da ciência e as necessidades determinadas por prazos legais - um relatório que estabelece um marcador importante na evolução da recuperação do golfo, mas é muito mais uma abordagem inicial do que a última palavra.

"Esta é a primeira vez que alguém tomou à frente e disse: ‘Isto é o que achamos que será o futuro do golfo"', disse Feinberg numa entrevista recente.

E a notícia, de acordo com o relatório, é melhor do que muitos esperavam: o golfo está passando por uma intensa recuperação, com as populações globais de peixes potencialmente de volta a níveis pré-vazamento até o final de 2012, embora bancos de ostras e algumas outras áreas fortemente atingidas possam sofrer por um período mais longo, levando a pescas reduzidas para alguns pescadores.

  Trabalhando a partir destas estimativas, a equipe de Feinberg desenvolveu um plano que demanda pagamentos do dobro de danos que a maioria das pessoas alegando ter tido no ano passado e quatro vezes os danos para demandas relacionadas a ostras no mesmo período.

As diretrizes traçadas por Feinberg se basearam em dois relatórios, um de Tunnell e outro da Analysis Research Planning Corp., empresa de consultoria econômica com experiência na avaliação de desastres para ações judiciais.

Feinberg disse que escolheu Tunnell porque "ele não esconde o jogo - ele fala a verdade, e é isso que eu queria saber," afirmou.

Tunnell é diretor associado do Texas A&M’s Harte Research Institute em Corpus Christi, cujo foco é o Golfo do México e pesquisa marinha. Ele reúne biólogos e químicos, mas seu time também inclui um economista e um especialista em direito e políticas marítimas.

O diretor executivo do Instituto Harte, Larry McKinney, disse que o vazamento foi "exatamente o que nós nos unimos para analisar." O instituto endossou o relatório de Tunnell.

Entretanto, o relatório rapidamente atraiu críticas das vítimas do vazamento e de ambientalistas que disseram que ele menosprezou o dano causado pelo poço danificado da BP.

"Não é um relatório científico, é uma opinião" afirmou Ian MacDonald, professor de oceanografia da Florida State University e membro do painel científico consultivo da National Wildlife Federation. "Ele não propôs nenhuma metodologia pela qual suas suposições e previsões poderiam ser testadas."

MacDonald completou: "Nós não podemos usar esses panoramas cor-de-rosa iniciais como uma desculpa para não fazer o que é necessário, que é estabelecer de uma vez por todas um método de monitoramento da saúde e um programa de recuperação para todo o ecossistema do Golfo do México."

Outro especialista marinho, James Cowan, cientista da pesca da Louisiana State University, disse que o relatório "sofre de aglutinação demais," querendo dizer o agrupamento de tantas espécies que um impacto significativo em algumas delas pode ser ofuscado.

"A questão é que isto afeta mais um pequeno número de espécies diretamente e indiretamente - e esta é a parte que está faltando", ele disse.

Tunnell admitiu a crítica de MacDonald, dizendo: "Sim, Ian está correto. É uma opinião." Mas acrescentou que seu relatório foi baseado numa revisão completa dos dados disponíveis no momento.

Ele afirmou também que sua opinião não conflita com os objetivos descritos por MacDonald. Na verdade, disse ele, o Instituto Harte está "fazendo exatamente o que o Dr. MacDonald alega que precisa ser feito," e está trabalhando em estratégias adicionais de avaliação, recuperação e proteção para o golfo.

Quanto à questão do agrupamento, ele reconheceu ser um "ponto fraco do relatório", mas completou: "Duvido que qualquer pessoa estivesse disposta a escrever um relatório sobre espécies específicas como esse."

Tunnell afirmou estar preparado desde o início para fortes reações, e até para ataques pessoais.
"Com meus 35 anos de experiência vendo outras áreas, isto é definitivamente o que eu penso", afirmou, adicionando um alerta sobre áreas de preocupação contínua, como pântanos danificados e corais de mar profundo mortos.

"O tempo poderá dizer que estou errado," disse, "mas eles precisavam prosseguir com os casos de acordo e eu senti que podia dar conta do recado."

Muitos relatórios iniciais de analistas ambientais, segundo ele, eram alarmistas.

"Logo que ocorreu o vazamento, muitas pessoas estavam alardeando que coisas horríveis iriam acontecer, e que o Golfo do México inteiro morreria,". "É pena que até cientistas tenham reagido daquela maneira, pois isso nos difama coletivamente quando tais coisas não ocorrerem."

Embora esse relatório possa parecer otimista para alguns, ele não é um fantoche da indústria: "Tenho treinado pessoas para cuidar do meio ambiente há décadas", afirmou.

Feinberg, administrador do fundo, disse que o relatório não era definitivo, mas estabeleceu a base para negociação de acordos finais.

"Não alego ter uma bola de cristal - este é um universo obscuro". "Mas o direito tem prazos, e isto é o melhor que posso fazer."

Quanto àqueles que acreditam que as estimativas são otimistas demais e, portanto, as indenizações pagas pelo fundo serão muito pequenas, podem continuar a observar e esperar durante o período de três anos do programa de pagamento, para ver de que forma o golfo se recupera, e ajuizar pedidos de pagamentos intermediários ao longo deste período.

Finalmente, afirmou Feinberg, propor um processo judicial, em vez de um acordo, ainda é uma opção disponível para todos.

"Se você não quiser, não aceite", disse ele.

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