Uso do fogo é mais recente do que se pensava

Estudo arqueológico mostra que homem domou fogo há 400 mil anos e levanta questão de como hominídeos sobreviveram ao frio europeu

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Acampamento neandertal: domar o fogo teria sido importante para colonizar Europa
Um novo estudo está levantando questões sobre quando os ancestrais humanos na Europa aprenderam a controlar o fogo, um dos passos mais importantes para o início da civilização.

Uma revisão de 141 sítios arqueológicos no continente mostrou que o uso habitual de fogo começou entre 300 mil e 400 mil anos atrás, de acordo com um artigo publicado esta semana pelo periódicio Proceedings of The National Academy of Sciences.

A maioria dos arqueólogos concorda que o uso do fogo está ligado à colonização humana fora da África, especialmente na Europa, onde as temperaturas chegam a abaixo de zero, escreveram Wil Roebroeks, da Universidade de Leidens, na Holanda, e Paola Villa, da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos.

Ainda assim, mesmo com provas de hominídeos vivendo na Europa há um milhão de anos, os pesquisadores não acharam evidências claras de uso regular de fogo antes de 400 mil anos atrás. Depois dessa data, Neandertais e seres humanos modernos usavam fogo de maneira costumeira, para se aquecer, cozinhar e iluminar suas moradias.

A descoberta levantou a pergunta: como eles sobreviviam a climas frios sem fogo? Os pesquisadores sugerem que um estilo de vida bastante ativo, com uma dieta rica em proteínas, pode tê-los ajudado a se adaptar ao frio – já que o consumo de carne crua e frutos do mar por caçadores-coletores já foi bem documentado.

Antes desse período, apenas um sítio em Israel mostrou sinais anteriores de fogo controlado, notaram os cientistas, e existem locais na África que indicam uso esporádico de fogueiras.

O estudo não impressionou o arqueólogo da Universidade Harvard Richard W. Wrangham, autor de um livro que argumenta que cozinhar alimentos – técnica que pode ter sido aprendida até dois milhões de anos atrás – foi o que permitiu que a nutrição melhorasse o suficiente para um arranque evolutivo que promoveu cérebros maiores, e, eventualmente, fez com que surgissem os seres humanos modernos.

Wrangham sugeriu que a falta de provas arqueológicas de fogo poderia simplesmente significar que, ao longo do tempo, as cinzas e ossos queimados foram destruídos ou dispersados. Mas Paola Villa afirmou que essa hipótese não se sustenta, já que foram encontrados indícios de ossos queimados em uma caverna sul-africana, datados de um milhão de anos atrás: “Então ossos queimados podem se preservar, sim”.

“Este estudo representa muito claramente o que Wil Roebroeks chamou, muito elegantemente, de um caso de “fricção científica”, resultando do choque entre evidências biológicas e arqueológicas,” Wrangham analisou, por e-mail. “De qualquer maneira, temos um enigma interessante,” concluiu.

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