Urbanização no cerrado altera idioma dos índios Xerente

Aproximação com a cidade e barragens em rios faz com que índios da Reserva Xerente, no Tocantins, alterem até mesmo o vocabulário

Maria Fernanda Ziegler, enviada à Goiânia |

A comunicação entre os índios Xerente Akwén, no Tocantins, está confusa. A convivência com não-indígenas fez com que cada vez mais, e de forma muito rápida, palavras em português sejam tomadas de empréstimo e colocadas no meio das frases em sua língua nativa, o xerente. A reserva indígena de 3.100 habitantes, dividida em 56 aldeias, está próxima a muitas cidades, como Tocantínea (5 km) e Palmas (100 km).

Os mais velhos estão preocupados com a língua misturada em português. O "portu-xerente" está ficando difícil se entender e as tradições estão se perdendo. O problema é que a estrutura da língua xerente deixa a sua mistura com o português algo muito complicado. “A língua é aglutinante, então o empréstimo é feito de forma diferente do que se pegássemos palavras em inglês para o português. Para a gente delete vira deletar. Em Xerente, a nova palavra vai entrando no meio de outras palavras”, disse Silvia Braggio, professora de lingüística da Universidade Federal de Goiás, em apresentação na 63ª reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.

O empréstimo de palavras de outros idiomas é uma coisa comum em todas as línguas. De acordo com Rodrigo Mesquita, doutorando em linguística pela UFG, o problema está na rapidez e na intensidade com que isto está acontecendo entre os Xerente.

O resultado é que palavras usadas pelos mais velhos não são as mesmas usadas pelos mais novos. Um exemplo é a palavra papel que em xerente é haisuka, que significa folha para escrever. Os mais jovens falam papé. Rádio em xerente é târãmr¿m¿ (ferro que fala). Os mais jovens falam had.

Acabou o peixe, acabou o nome
Outro problema é a mudança da relação com o meio ambiente. A conclusão das obras da usina de Lageado, no rio Tocantins, trouxe o progresso, mas também uma série de alterações na vida dos índios da reserva Xerente.

De acordo com o índio Bonfim Sizdadê Xerente, a natureza mudou e não há mais peixes e as plantações que usavam as vazantes do rio já não são mais de controle deles. Os índios precisam ir para a cidade todos os dias para comprar comida, já que não há pesca.

Sinval Martins de Souza Filho, da UFG, estudou a relação dos nomes das pessoas com a natureza do Cerrado. Os nomes pessoais dos Xerente são os mesmo usados em animais. “Eu perguntei para eles como uma pessoa pode ter o nome de um animal, ser chamada de garça, por exemplo. E a resposta que tinha era que a pessoa se parecia com uma garça. Ou seja, não é só um nome, mas uma adjetivação”, disse.

Souza Filho explica que os nomes próprios são o fio condutor da organização social dos Xerente. As atividades da aldeia são repartidas. “Aqueles que vão cuidar dos peixes vai se chamar peixe. Tem os amigos formais que recebem nomes de sentimentos, como ciúme, respeito e etc. Pessoas que vão cuidar dos utensílios recebem nomes de pente, panela, por exemplo”, disse. Como fim dos peixes, as novas gerações vão perder mais um nome.

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